Resenha no jornal “Opção”, de Goiânia – por Ronaldo Cagiano

Confira aqui “Cartografia sentimental e literária da capital mineira, um retrato de BH”, resenha de Ronaldo Cagiano para o jornal Opção, de Goiânia, sobre “Uma cidade se inventa”.

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Leituras de “Uma cidade se inventa”

Comentário do poeta Alexandre Marino, mineiro radicado em Brasília, sobre “Uma cidade se inventa” (do Facebook)

“O que é uma cidade, senão a multiplicação de cidades fantasiadas pelos olhares de seus artistas? Certamente assim é Belo Horizonte, que apesar das transformações operadas por um suposto progresso, mantém vivos seus mitos e lendas, suas verdades e simbologias.
O escritor e jornalista Fabrício Marques, que lá vive desde o final de 1992, teve a admirável ideia de contar como é Belo Horizonte na visão de seus escritores. Assim, a partir de uma pesquisa que incluiu conversas e entrevistas com esses criadores e um levantamento de grande parte do que escreveram, considerado o período dentre os anos 1940 até o momento atual, ele escreveu o livro-reportagem “Uma cidade se inventa”, que a editora Scriptum, de Belo Horizonte, acaba de publicar.
“Ao privilegiar a estrutura do livro como um painel – e uma cartografia – à feição da cidade que se construiu segundo o modelo racionalista da modernidade, Fabrício Marques vai desmontando impressões e opiniões de seus habitantes com vistas a produzir um diálogo polifônico e desigual”, escreveu no prefácio a professora Eneida Maria de Souza.
O livro é ilustrado com fotos de João Marcos Rosa e saiu numa belíssima edição de 350 páginas, reunindo depoimentos, fragmentos de textos, poemas, numa viagem sentimental por uma cidade que carrega cicatrizes, mas não perde a capacidade de se reinventar.
Fabrício Marques fez um trabalho de grande fôlego, muito bem elaborado, desde o projeto inicial até a edição final. E devo agradecer-lhe a oportunidade de participar e fazer parte dessa história.”

“Cartografia sentimental e literária de BH”

Saiu hoje no blog Zona da Palavra uma resenha de Ronaldo Cagiano sobre “Uma cidade se inventa”. Confira aqui.

zona da palavra

RONALDO CAGIANO

Uma cidade. Apenas. Como jorro de sangue
na epiderme, ela circula na memória: meu trânsito
invisível que escreve floração de desalentos.

Clóvis Moura

“Realizando um trabalho de fôlego – “Uma cidade se inventa – Belo Horizonte na visão de seus escritores”– , o jornalista, poeta e crítico Fabrício Marques fez uma profunda incursão, ao mesmo tempo literária e afetiva, na vida literária e social de Belo Horizonte, a partir de do olhar e dos depoimentos de vários escritores sobre suas relações com a cidade. O livro conta com precioso material iconográfico capturado nas lentes de João Marcos Rosa, que vem de uma larga carreia de repórter fotográfico documentando a cultura e a biodiversidade brasileiras.

           A obra, com o costumeiro capricho gráfico e esmero artístico da Editora Scriptum, mapeia entre autores de poesia e ficção, a gênese de uma cidade que, desde a fundação, foi cenário e celeiro de movimentos culturais em suas diversas vertentes e linguagens artísticas. Nesse panorama, vamos encontrar uma geração de ouro da história intelectual brasileira, muitos deles deixaram Minas para pontificar em outros centros de efervescência cultural e literária, como Rio e São Paulo, entre os quais Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Pedro Nava, Murilo Mendes, Cyro dos Anjos, Helio Pellegrino, Abgar Renault, Autran Dourado, Paulo Mendes Campos, Aníbal Machado, Alphonsus de Guimaraens Filho, Darcy Ribeiro, Guilhermino Cesar e tantos outros.

          Entre a invenção e a memória, o autor coligou depoimentos, alinhou fatos, reproduziu experiências criativas de oitenta entrevistados, entre aqueles que nasceram ou se radicaram na cidade, os que ali vivem ou viveram e que deram fundamental contribuição à formação da identidade cultural mineira e a esse potencial berço de celebridades não apenas literárias, mas também da vida política nacional.

       Percebe-se no decorrer desse caudaloso e sensível inventário, seja nas entrevistas ou testemunhos, a influência da cidade e de seus ambientes míticos (redações de jornais, bares, encontros, livrarias, points, edifícios, eventos e bate-papos) experiência pessoal e criativa desses autores, circunstâncias que vão além das amizades e da fidelidade ao cenário, à vida, aos acontecimentos e uma certa psicologia belorizontina. É sobretudo a apreensão de variados fatores e idiossincrasias determinantes na construção desse relicário pessoal (ou identidade) mineiro na obra e na construção dos próprios personagens, numa geografia de sutilezas e detalhes que vão compondo um riquíssimo painel, não apenas bibliográfico, mas imagético e humano dessa polifônica, multifária e modernista capital das Gerais.

          Como constata Ivan Ângelo, para explicitar e definir o caráter expansivo, receptivo, heterogêneo e cosmopolita da cidade, “Belo Horizonte é o mar onde deságuam rios de gente mineira, uns com mais, ouro, outros com mais ferro, este cristalino, aquele turvo” e que consolida o espírito do livro, verdadeiro espelho dessa que não é apenas uma, mas tantas outras numa só capital. A BH do Ed. Maleta e da Av. Afonso Pena, da Pampulha e do Mercado Central, do Mineirão e dos bares e livrarias da Savassi, da Praça da Liberdade e do córrego Arrudas, do Clube da Esquina e do SLMG, a cidade de autores há pouco partiram, como Duílio Gomes, Wander Piroli, Bartolomeu Campos de Queirós, Afonso Ávila e Garcia de Paiva, de tantos quantos a contaram, cantaram & a definiram em seus versos e périplos narrativos o labirinto sensorial de uma metrópole. Babel babilônica de vozes, corpos, livros e sentidos, coreografia que marca todo um itinerário de inquietações de uma metrópole que cresce, corre e não se exaure naquilo que só a linguagem artística é capaz de revelar, essa antologia de textos sentimentais, mas povoados de intensa literatura, confirma o que já nos revelara o autor de Grande sertão: Veredas,  para quem Minas há pelo menos várias e BH funciona como receptáculo dos valores, costumes e tradições desse caleidoscópico território social e  humano, representado na híbrida produção literária que Fabrício Marques nos revela ao abrir o espólio de um passado tão recente dessa Capital já tão emp(r)enhada de histórias para (e por) contar.

       “Uma cidade se inventa”, mais que registro, roteiro lírico e testemunho geracional, é obra que desvela a alma e instaura uma declaração de amor a Belo Horizonte, transcendendo  a mera configuração urbana. Vai além, para firmar-se como documento imprescindível para estudo, pesquisa e prazer estético nessa possibilidade de releitura da cidade a partir de seus escritores-protagonistas, com a herança semântica da memória e o sentido metafórico e escrutinador de todos os tempos e vidas de uma cidade de apenas 117 anos.”

Notas de leitura: blog “Capítulo Dois”

O Capítulo Dois, que já havia entrevistado o autor, postou uma nota sobre o livro “Uma cidade se inventa”.

Ei-la:

“Uma Cidade se Inventa” (Scriptum), de Fabrício Marques*
O blog tratou do livro quando entrevistou seu autor, numa conversa que identificou a motivação do projeto: traduzir uma cidade, no caso, Belo Horizonte, pela vida dos escritores que viveram e moraram nela. Lançado com o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, o livro percorre quase cem anos de história. Recua à decada de 1920, quando despontavam nomes como Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, e avança até tempos atuais, em que escritores optam por morar na cidade, como Luis Giffoni e Maria Esther Maciel. O livro se sustenta numa pesquisa rigorosa. Ao final, o leitor tem uma tabela que lista todos os escritores que moraram por algum tempo na cidade, com indicação do período. Escrito naquela zona onde o ensaio encontra a reportagem, “Uma Cidade se Inventa” reconta a história de BH e acaba se tornando um documento original. Acompanha o texto foto de João Marcos Rosa, todas em preto e branco e atuais, o que provoca um choque interessante, entre o passado recontado e o presente por vezes melancólico.

Confira aqui.

Belo Horizonte sob prosas, versos e angústias

Vista aérea da Igreja de São Francisco, na Pampulha FOTO: JOAO MARCOS ROSA/NITRO
Vista aérea da Igreja de São Francisco, na Pampulha
FOTO: JOAO MARCOS ROSA/NITRO

No dia 26/09/2015 saiu matéria assinada por Elemara Duarte para o Caderno Almanaque, do “Hoje em Dia”.

Confira aqui.

“O jornalista e professor Fabrício Marques comprova a vocação da capital mineira para ser musa – mesmo que imperfeita. Para isso, hoje, ele apresenta aos nativos de berço e de coração o livro “Uma Cidade se Inventa – Belo Horizonte na Visão de Seus Escritores”.
Na bem feita pesquisa para o livro ele buscou autores desde antes da fundação da cidade, em 1897, até os dias atuais e encontrou cerca de 120 nomes. O “marco zero” deste processo é dividido entre dois escritores: o português Alfredo Camarate, que chegou em BH em 1894 para trabalhar em um jornal e é considerado por historiadores como o “fundador da crítica musical no Brasil”; e o romancista Avelino Fóscolo, que escreveu “A Capital”.
A partir dos anos 1920, a cidade recebeu escritores como Drummond (1902-1987), que encabeçou, entre os modernistas, a geração desta década.
Já em meados dos anos 1940, vem a geração da “Revista Edifício”, com nomes como do escritor Autran Dourado (1926-2012). E, a partir de 1956, com a “Revista Complemento”, BH abriga autores como Silviano Santiago e Ivan Ângelo.
Suplemento literário
Na década seguinte é a vez da geração “Suplemento Literário” – jornal criado em 1966, por Murilo Rubião (1916-1991). Esta geração, marcada pelo “experimentalismo com a linguagem” mostrou nomes como Sebastião Nunes e Sérgio Sant’Anna.
Entre os anos 1970 e 80, a cidade cresce e a crítica em relação à ela também. “Temos Luiz Giffoni e Marcelo Dolabela. A cidade se torna uma metrópole com todos os problemas sociais”. E, recentemente, a cena traz autores como a poetisa Ana Martins Marques.
Mas será que “Uma Cidade se Inventa” achou algo em comum entre Camarate e Ana Martins – o primeiro e a mais recente? “Ambos moraram em BH, mas são diferentes. Ela tem esta carga histórica para falar sobre a cidade. Enquanto que o Camarate tinha um cotidiano bem mais limitado”, compara o jornalista.
E se há um sentimento de “belo-horizontinidade” entre estes autores é algo que se assemelha a uma angústia de “estar um pouco deslocado”. Nisto, Marques aponta o poema “Belo Horizonte”, de Ana Martins (leia abaixo). O mesmo sentimento aparece na geração dos anos 1940, que também teve Fernando Sabino. “O Sabino usa a expressão ‘puxar a angústia’. E essa angústia da existência é algo de que a literatura também se ocupa”, avalia o professor.
O que alguns escritores pensam – ou pensavam – sobre BH:

“Ele não está não senhor, ele viajou ontem”. “Viajou ontem? Para onde?” “Belo Horizontem”. (Irônico, o escritor Rubem Braga (1913-1990) reproduz diálogo da empregada de um amigo seu, com alguém que o procurava.)

“eu-menino-do-campo, te faço conviva e digo que a palavra que escrevo é origem (…) verto o amálgama da pampulha veleiro arco-íris que choram de solidão”. (Wilmar Silva, em “Arranjos de Pássaros e Flores”)

“A cidade é maldita em seus ritos,/ em propagar sua triste cultura,/ de fazer o pobre sempre proscrito”. (Marcelo Dolabela, em “Acre Ácido Azedo”)

“Belo Horizonte, que lindo nome! Fiquei a repeti-lo e a enroscar-me na sua sonoridade. Continha fáceis ascensões e aladas evasões”. (Pedro Nava, no livro “Beira-Mar”)

“[1] Um dia vou aprender a partir/ vou partir/ como quem fica [2] Um dia vou aprender a ficar/ vou ficar/ como quem parte”. (Poema “Belo Horizonte”, por Ana Martins Marques)”

“Uma cidade se inventa” no “Digestivo Cultural”

Fabrício Marques e João Marcos Rosa, no lançamento de "Uma cidade se inventa", na livraria Scriptum, em Belo Horizonte, no dia 26/9/15. Foto de Raíla Melo
Fabrício Marques e João Marcos Rosa, no lançamento de “Uma cidade se inventa”, na livraria Scriptum, em Belo Horizonte, no dia 26/9/15.
Foto de Raíla Melo

Nota para o site “Digestivo Cultural”, assinada por Ana Elisa Ribeiro, em 28/9/15.

Confira aqui.

“O jornalista mineiro Fabrício Marques acaba de lançar Uma cidade se inventa, espécie de crônica jornalística que cartografa trajetórias e afetos de escritores pelos espaços da cidade de Belo Horizonte. A iniciativa fantástica entra para a história cultural da cidade – e do país, já que Minas Gerais é celeiro de escritores desde sempre – e registra a movimentação viva dos artistas até os dias atuais.”

ANA ELISA RIBEIRO, para o site DIGESTIVO CULTURAL

Passeio pela BH literária

capa do pampulha

(Reportagem de capa do “Pampulha”, assinada por Jessica Almeida, em 26/9/15. Confira aqui.)

“Artistas são mortais. Sua obra, no entanto, permanece. E uma espécie de elo desse par são os lugares em que viveram, locais por onde passaram, espaços em que moraram. Estes locais, ainda que se transformem ao longo do tempo, conservam rastros, vestígios, evidências de quem foram aquelas pessoas, ao mesmo tempo em que são (ou foram) matéria-prima para a expressão de sua linguagem.

Nesse sentido, Belo Horizonte tem papel fundamental na literatura brasileira. A cidade é berço de grandes escritores da língua portuguesa, como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Pedro Nava (1903-1984), Henriqueta Lisboa (1901-1985), Cyro dos Anjos (1906-1994), Fernando Sabino (1923-2004) e tantos outros que, ainda que não tenham efetivamente nascido na capital, passaram anos cruciais de sua formação aqui.
Drummond, por exemplo, viveu em BH entre 1919 e 1934. “Foi aí que tudo aconteceu. Ele conheceu sua mulher, os amigos com quem manteve contato pelo resto da vida, participou do grupo que fundou ‘A Revista’ (publicação de afirmação do modernismo em Minas), teve dois filhos (o primeiro faleceu pouco depois do parto). Saiu com pouco mais de 30 anos”, diz o escritor mineiro Humberto Werneck, 70, que embora deixado Belo Horizonte há 45 anos, também passou a juventude aqui. “É diferente passar 15 anos em um lugar na idade que tenho hoje e fazê-lo no início da vida. Quando se é jovem, as coisas ficam impregnadas de uma outra maneira”.
A forma como Belo Horizonte impregnou esses escritores – desde os modernistas até os mais contemporâneos – e como isso se reflete em sua literatura é o fio condutor do livro “Uma Cidade se Inventa – Belo Horizonte na Visão de seus Escritores”, do escritor e jornalista Fabrício Marques, que será lançado neste sábado (26). “É um conjunto de várias pequenas biografias que trazem o que esses autores pensam sobre a cidade, somando um amplo painel de significados que ela assume sob a ótica deles”, diz Fabrício.
O livro é também, segundo o autor, uma forma de chamar a atenção para a importância de determinados lugares e para o fato de que precisam ser preservados. “Se não há o reconhecimento do que representam esses espaços, eles podem acabar destruídos e, assim, se tornam tão mortais quanto nós”, adverte.
reportagem pampulha 1
Ressignificação
Por outro lado, mesmo que deixem de existir, a própria dinâmica da vida urbana pode ressignificá-los, mantendo sua relevância. Como aconteceu com o edifício na esquina da rua da Bahia com avenida Augusto de Lima. Ali funcionava o Grande Hotel, cujo restaurante chegou a ser retratado no poema “Noturno de Belo Horizonte”, de Mário de Andrade, que lá se hospedou e se aproximou de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Emílio Moura (1902-1971). Demolido em 1957, deu lugar ao Edifício Arcangelo Maletta, inaugurado em 1961, que com seus bares, restaurantes e inferninhos se transformou em núcleo da boemia na cidade. Foi lá, inclusive, no bar Lua Nova, que outra geração, formada por Murilo Rubião (1916-1991), Jefferson de Andrade (1947-2013), Roberto Drummond (1933-2002), Luiz Fernando Emediato e Fábio Lucas conceberam o “Manifesto Contra a Censura”, assinado em 25 de janeiro de 1977.
“É por isso que o livro se chama ‘Uma Cidade se Inventa’. Nós morremos e renascemos todo dia, a cidade também”, diz o autor. “É um livro de história, mas também é de geografia. O fato de os escritores terem vivido e circulado por determinado lugar é muito importante, porque de algum modo vai afetar o que eles escrevem”.
A perspectiva de Fabrício é reforçada pela pesquisadora e professora de geografia Flora Sousa Pidner. “Qualquer prática cultural é espacial primeiro porque todos nós temos uma vivência que é do espaço. A arte tem um fundamento que é a própria realidade em que o artista está inserido e essa realidade também é geográfica, mesmo quando o que produz é ficção”, explica. “Um bom exemplo disso é o Gabriel García Márquez, quando escreve ‘Cem Anos de Solidão’. Por mais que Macondo seja uma cidade fictícia, há vários elementos identificados como de sua cidade natal, Aracataca, na Colômbia. Ainda que seja uma ficção científica que se passe no espaço. A perspectiva é sempre de alguém que está na Terra”.
reportagem pampulha 2
O efeito das montanhas
O motivo porque Belo Horizonte deu origem a tantos escritores, de alguma forma, talvez seja o mesmo que fez muitos deles deixarem a cidade rumo ao Rio de Janeiro ou a São Paulo: o tédio. Embora seja a capital do Estado, em suas primeiras décadas não oferecia muitos atrativos. Por conta disso, o escritor e jornalista Fabrício Marques entende que isso acabava fazendo com que as pessoas se voltassem muito para si mesmas. “Acredito que esses autores encontraram na escrita uma forma de se relacionar tanto consigo mesmos quanto uns com os outros. E faziam isso com paixão, era algo vital”, diz.
O fato de serem numerosos acabava justamente por multiplicá-los, como analisa o escritor Humberto Werneck. “Por sua própria presença, acabavam servindo de exemplo para as novas gerações que iam chegando”, afirma. “A partir do modernismo, as gerações literárias mineiras meio que se engatam umas nas outras, sem necessidade de ruptura. É possível que isso seja consequência do espírito conciliador mineiro, que teria sido moldado pela geografia montanhosa: já que somos obrigados a conviver uns com os outros, vamos tratar de nos entender”.
Pontos de encontro
Além de conviverem, tanto eles quanto seus personagens circulavam preferencialmente por determinados espaços: rua da Bahia, viaduto Santa Tereza, Bar do Ponto, Café Estrela, Livraria do Estudante, Leiteria Celeste, Grande Hotel, Edifício Maletta, rua Erê (no Prado), bares Saloon, Cantina do Lucas, Lua Nova, Praça da Liberdade, salão Vivacqua, Livraria Alemã. Locais como esses – muitos já extintos – não só eram onde os escritores se reuniam para conversar, beber, trocar ideias, como também foram cenário de muitas de suas histórias.
Em uma de suas crônicas mais recentes no jornal “Estado de S. Paulo”, Werneck, que trabalha atualmente numa biografia de Carlos Drummond de Andrade, se diverte com a hipótese de o poeta estar no prédio da maternidade onde nasceu, o Hospital São Lucas, na hora de seu parto. Não seria impossível, já que dona Julieta Augusta, a mãe de Drummond, residia no hospital naquela data. “Fiz essa brincadeira porque o que ele escreve tem muito a ver comigo, uma afinidade unilateral muito grande, que imaginei que seria divertido que no dia 10 de fevereiro de 1945 ele estivesse lá”, diz.
Embora Werneck tenha feito apenas uma brincadeira, Fabrício Marques enxerga na possibilidade de reconhecer e estar num lugar outrora frequentado por alguém que admiramos algo de potencial efetivamente transformador. “Acredito que os locais por onde passamos de alguma maneira vão nos marcar, seja pela afirmação ou pela negação. Uma prisão, por exemplo, tem uma carga negativa. Já esses lugares por onde passaram os escritores em BH adquiriam a capacidade de criar sentido de pertencimento nas pessoas, para além até da questão da literatura”, comenta.
Roteiro literário
E é em função disso que o escritor e gestor cultural Afonso Borges conduz um projeto que pretende mapear as residências, locais de trabalho, de escrita e de diversão dos escritores, criando um roteiro literário na cidade. O recorte da proposta, por ora, envolve três décadas do século XX, de 1915 a 1945. “A primeira etapa do projeto engloba, além do levantamento das informações, a criação de um mapa online que as torne disponíveis para consulta”, explica Afonso. “Num segundo momento, serão colocadas placas, totens e referências nas paredes para identificação desses lugares. Futuramente, esse roteiro pode virar uma coisa mais ambiciosa: o primeiro museu literário a céu aberto do Brasil”.
O projeto, conduzido com apoio da Fundação Municipal de Cultura, deve ficar pronto antes da próxima edição do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), em 2016. “A ideia é trabalhar com a autoestima do cidadão de Belo Horizonte, mostrar a importância incomum da cidade para a literatura, coisa que dessa forma não se vê em nenhum outro lugar do Brasil”, diz.
Memória a ser preservada
Na esquina da rua Congonhas com Leopoldina, no bairro Santo Antônio, fica um imóvel que já abrigou um dos mais badalados redutos da boemia da cidade, o extinto Bar do Lulu. Décadas antes disso, porém, a casa já havia entrado para a história da capital: foi residência de Guimarães Rosa (1908 -1967), logo que casou-se com Lygia Cabral Penna. Depois de anos de abandono e depredação, a casa encontra-se cercada de tapumes, desde que foi incorporada a um empreendimento imobiliário que será erguido ali.
Por meio de nota, a Fundação Municipal de Cultura informou que o imóvel faz parte do conjunto de casas da rua Congonhas que foram tombadas e é objeto de um projeto de restauração e de construção de nova edificação.
No entanto, integrantes do movimento Salvemos a Casa de Guimarães Rosa em Belo Horizonte ainda temem que seja preservada somente a fachada da casa e que seu uso não seja garantido a toda população. “Nosso medo é que não só a casa onde Guimarães Rosa viveu, mas todas do entorno acabem como salão de festas ou estacionamento de um prédio”, diz o diretor do movimento, Sávio Leite. “O que propomos é que ela seja preservada integralmente e que seu uso seja aberto à população, em forma de museu ou centro cultural”.