Reportagem publicada no Magazine (20/9/2015)

MAGAZINE CAPA

“A BH dos escritores”, reportagem de capa do “Magazine”, de “O Tempo”, assinada por Carlos Andrei Siquara, sobre o livro “Uma cidade se inventa – Belo Horizonte na visão de seus escritores”.

Confira aqui a versão online.

*

No vídeo/material multimídia preparado especialmente para acompanhar a reportagem de hoje no “Magazine”, o escritor Carlos de Brito e Mello lê um trecho do prefácio de Eneida Maria de Souza. Para acompanhar a leitura, as fotos do João Marcos Rosa.

Confira aqui.

MAGAZINE PG 6

MAGAZINE PG 7

capa do magazine

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Três fotos: Fundação da Associação Mineira de Escritores, Affonso Ávila e Sérgio Sant’Anna

Fundação da Associação Mineira de Escritores. À frente, Fritz Teixeira de Salles, Emílio Moura e Geir Campos (visitante). Ao lado, Teresinha Alves Pereira e Heitor Martins. De pé, Aires da Mata Machado Filho. Silviano Santiago está atrás de Emílio. Ainda na foto: José Haroldo Pereira, Luis Carlos Alves, Geraldo Magalhães e Francisco Iglésias. Crédito: Arquivo pessoal / Silviano Santiago
Fundação da Associação Mineira de Escritores. À frente, Fritz Teixeira de
Salles, Emílio Moura e Geir Campos (visitante). Ao lado, Teresinha Alves
Pereira e Heitor Martins. De pé, Aires da Mata Machado Filho.
Silviano Santiago está atrás de Emílio. Ainda na foto: José Haroldo Pereira, Luis Carlos Alves, Geraldo Magalhães e Francisco Iglésias.
Crédito: Arquivo pessoal / Silviano Santiago
Sérgio Sant'Anna nos tempos do Suplemento Literário de Minas Gerais Crédito: Arquivo SLMG
Sérgio Sant’Anna nos tempos do Suplemento Literário de Minas Gerais
Crédito: Arquivo SLMG
Affonso Ávila por Guilherme Bergamini (2004)
Affonso Ávila por Guilherme Bergamini (2004)

Wir Caetano: “poesia, poesia: viver a vida, e dizê-la”

Wir Caetano Crédito: Divulgação
Wir Caetano
Crédito: Divulgação

POEMA PARA MULHER

I
o poema e seu projeto

– o real e o possível

II
1.
poesia toda verbo
– tensão entre coisa e nome

2.
poesia toda vida
– tensão entre corpo e corpo

3.
poesia toda corpo
– tensão do si em si mesmo

4.
poesia, poesia
– viver a vida, e dizê-la

III
5.
os humanistas planejam,
os amantes morrem juntos

6.
viver o gozo e depois
deixar a carta aos gentios

com a benção, cruzarão
as águas, as cordilheiras

(…)

(trecho inicial do poema, composto de mais oito páginas)

"Morte porca"
“Morte porca”

Leia, a seguir, a apresentação que Bueno de Rivera escreveu para o primeiro livro de Wir, “Paixões e atrofias” (Edições Trote, 1982). Bueno morreu no dia 25 de julho de 1982, antes da publicação do livro.

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE UM POETA ORIGINAL

A poesia de Wir Caetano chega até nós como um novo caminho e uma esperança nova. Caminho de descobertas, de imprevistos e novidades. Esperança de saída para um período de criatividade e independência.

Chega de truques, enigmas, palavrório indecifrável, páginas de impropérios e desesperos, poemas para escandalizar. Chega! Que apareçam autênticos inovadores!

Wir é, sem dúvida, um inovador. Sem imitar ninguém, busca fórmulas para um canto abrangente. Possui uma atitude legítima de comunicação. Consegue captar o hoje e o agora. Penetra as coisas e a alma dos seres com argúcia e vivência impressionantes. Atento ao rumor do mundo.

(…)

Wir é o poeta da coisa em si. Os objetos são o seu material preferido para enunciar o seu pensamento. A casa, os utensílios, a mesa, a cama, a cozinha, as espumas no rosto, o banheiro e as toalhas; um olho vivo se movendo, observando o silêncio das coisas em seu fluir misterioso. O mundo o interessa como morada de seu corpo e como espaço onde exercita a sua sensibilidade, sempre atenta aos fenômenos.

(…)

Importantíssimo (para não dizer belíssimo) é o “Poema para mulher”, dividido em vários incisos. Começa com algumas reflexões sobre a vida, entra a louvar a família, canta a tranquilidade do lar. (Leia os seis versos finais do poema e constatará a segurança deste poeta tão jovem, mas tão consciente de sua verdade).

(…)

Eis um poeta jovem, com uma força que encanta, convence, comove e impressiona.

Guardemos o seu nome. É um poeta que ficará.”

[Bueno de Rivera / Belo Horizonte, outubro de 1981]

#

NO MEIO DO CAMINHO (ou O CAMINHO DO MEIO)

Lancei em 1982 meu primeiro livro, “Paixões e Atrofias”, poemas. Até hoje acho bacana. Só 20 anos depois trouxe à luz outro, o “Morte Porca”, ficção, lançado primeiramente em São Paulo, depois em Belô. Só voltei a viver em Monlevabuçu, meu torrão natal, uns dois anos depois.
Quando lancei o MP [Morte Porca], disse que só dentro de 20 anos lançaria outro. “Fala isso não, Wir”, disseram uns amigos e uns colegas na época. Olho a folhinha e vejo que 2012 taí: 10 anos já.”

[Texto de Wir Caetano publicado em 31.12.2011. Ou seja: faltam 7 anos para o próximo lançamento do escritor]

Lançamento de “Uma cidade se inventa” será dia 26 de setembro

convite uma cidade se inventaAnotem na agenda: o lançamento do livro “Uma cidade se inventa” será no dia 26 de setembro, na livraria Scriptum, em Belo Horizonte.

O blog completa seis meses, com 2 mil visualizações de 1.168 visitantes. Além do Brasil, visitaram esse espaço internautas dos Estados Unidos, Portugal, França, Uruguai, Argentina, Alemanha, Áustria, Nicarágua, Hungria, Bélgica, Rússia, Canadá, Croácia e Peru.

Obrigado a todos!

LIVRO MERGULHA NA RELAÇÃO DA CAPITAL MINEIRA COM SEUS AUTORES

Uma cidade se inventa – Belo Horizonte na visão de seus escritores será lançado 26 de setembro

Uma cidade se inventa – Belo Horizonte na visão de seus escritores – uma espécie de perfil da cidade pelo olhar de poetas, contistas e romancistas –, do jornalista e poeta Fabrício Marques, será lançado no dia 26 de setembro, sábado, a partir de 11 horas da manhã. O evento será na livraria Scritpum (na rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).

O livro é resultado de uma pesquisa literária e jornalística que durou nove anos. São cerca de 80 entrevistados e um levantamento de mais de 160 obras de ficção (poesia e prosa) que falam de Belo Horizonte. Há, ainda, infográficos – como mapas da geografia literária da capital, em décadas diferentes – e um ensaio fotográfico de João Marcos Rosa, com 70 fotos produzidas especialmente para o projeto.

Uma cidade se inventa é o resultado do projeto “Cartógrafos da vertigem urbana”, que acompanha diversas gerações da cidade, desde os modernistas, passando pela Geração Edifício (Autran Dourado), Geração Complemento (Ivan Angelo e Silviano Santiago), Geração Tendência (Affonso Ávila), Geração Suplemento (Sérgio Sant’Anna, Humberto Werneck e Luiz Viela) até os mais contemporâneos (Ana Martins Marques, Carlos de Brito e Mello). Algo interessante em relação a BH é que desde seu início a cidade contou com a presença de escritores.

Ao longo dos 21 capítulos, muitas perguntas vão sendo respondidas: de que forma a capital mineira está presente na obra de escritores e poetas? Que caminhos da cidade eles percorreram? Que itinerários seguiram tanto os autores quanto seus personagens? Quais as imagens que ganham corpo na prosa e na poesia? Quais os pontos principais que ganham relevo em suas vidas e nas de seus personagens? Como traçar uma geografia literária de Belo Horizonte?

Para responder a essas e outras questões, o livro se transforma em um passeio geográfico-afetivo sobre a cidade, a partir dos autores, seus personagens e suas imagens, tentando entender de que maneira a literatura acontece na cidade, e de que maneira a cidade acontece na literatura.

Dois compositores: Flávio Renegado e Makely Ka

Flávio Renegado por Mário Canivello
Flávio Renegado por Mário Canivello

Nos últimos anos, Belo Horizonte está presente na produção de pelo menos dois compositores (também intérpretes de suas composições), Flávio Renegado e Makely Ka.

Flávio de Abreu Lourenço, o Flávio Renegado, nasceu em Belo Horizonte, em 1982. O rapper mineiro, já em seu disco de estreia, “Do Oiapoque a Nova York”, de 2008, incluiu “Conexão Alto Vera Cruz / Havana”, parceria com Gil Amâncio, e “Vera”, que remete à comunidade onde nasceu, o Alto Vera Cruz, um dos maiores aglomerados de vilas e favelas da região metropolitana da cidade. Em 2011 lançou seu segundo álbum, “Minha Tribo é o Mundo”.

Makely Ka nasceu em Valença do Piauí (PI), em 1975, e, além de músico, publicou dois livros de poesia, “Objeto Livro” (Edição do Autor, 1998) e “Ego excêntrico” (Selo Editorial), de 2003 – acompanhado do CD “Poemas de ouvido”. No mesmo ano, lançou o disco “A outra cidade”, em parceria com Kristoff Silva e Pablo Castro. Em 2007 sairia seu primeiro CD solo, “Autófago”, com destaque para a canção “A outra cidade”, que reproduz em seu início a voz subcomandante Marcos, gravada na cidade de Toluca, no México, e traz o refrão matador: “E o Arrudas continua cinzento e cheirando mal”.

Makely Ka Foto: Divulgação
Makely Ka
Foto: Divulgação

Falando do projeto “A outra cidade”, de 2003, Makely escreveu: “Acrescente-se a isso o fato de que tudo se deu em Belo Horizonte, cidade que sempre esteve fora do circuito oficial, sitiada num estado que, com certa dificuldade, carrega o fardo pesado de sua bagagem histórico-cultural assombrando e inibindo a atuação de seus jovens criadores. A verdade é que em nenhum momento tivemos a pretensão de realizar algo inovador, revolucionário, apenas reprocessamos todas as nossas influências e referências já bastante gastas, diga-se de passagem, e chegamos à conclusão de que nossas canções não passam de fragmentos residuais de tudo aquilo que ouvimos e absorvemos durante nossos anos de formação.

Então, sob um certo aspecto, estamos reciclando todo o residual daquilo que a indústria cultural pôs a nossa disposição/nos impôs. Esse lixo cultural é a matéria protéica com que alimentamos essas canções. Esperamos, por fim, que sirva de alimento para outros esfomeados.”

Flávio Renegado por Barbara Dutra
Flávio Renegado por Barbara Dutra

Confira, a seguir, a letra de “Vera”, de Flávio Renegado.

VERA
Flávio Renegado

O chão vermelho
A malandragem
Amor eterno, nega
Não é bobagem

Juntos sorrimos
Também choramos
Sempre unidos
Caminhamos
No mesmo passo
Na mesma estrada
Olhai por mim
Ó Vera amada
Ó Vera amada
Você sabe
Homem apaixonado tem visão capada
Não acha defeito na mulher amada
Pra ela dedica Rap, pra ela dedica Samba
Porque todo malandro vira otário quando ama?
Vera, te amo, de coração
Pois conheço as suas curvas como a palma da minha mão
Eu te conheço desde criança
Momentos bons e ruins trago da lembrança
Primeira namorada não se esquece
O primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro back

O Vera se de vera a gente se separa
Eternamente no meu peito faz morada

E a Vera, parceiro,
Essa daí, é minha musa maior

O chão vermelho
A malandragem
Amor eterno, nega
Não é bobagem

Juntos sorrimos
Também choramos
Sempre unidos
Caminhamos
No mesmo passo
Na mesma estrada
Olhai por mim
Ó Vera amada
Ó Vera amada
Ô Vera
Se é crime o amor que eu carrego
Traz o B.O., eu assino, eu sou réu confesso
Meu bem querer aonde for te levo
Você é luz e não é cruz que eu carrego

Uns
Admiram você
Outros, eu sei, não querem nunca mais te ver
Se me perco no mar da vida
Você é a luz
Minha descoberta, Terra de Vera Cruz
O meu Q.G.
Fonte de inspiração
A dona do meu flow
Das minhas canções, meu ponto alto
E já falei, você é luz
Minha bela, minha terra, o meu Alto Vera Cruz

Salve comunidade!

O chão vermelho
A malandragem
Amor eterno, nega, não é bobagem
Juntos sorrimos
Também choramos
Sempre unidos
Caminhamos
No mesmo passo
A mesma estrada
Olhai por mim
Ó Vera amada
Ó Vera amada

Salve, comunidade!
Salve, quebrada!
Mais paz, menos violência
É isso que o morro precisa
E salve o Cruzeirinho
Salve a Sumaré
Salve o Buraco do Sapo
Salve o Mineirinho, o Riviera, o Ás de Ouro

Salve o chão vermelho
A cerveja na esquina, o fim de tarde, o pôr do sol
A mulher bonita que passa desfilando…
É isso aí comunidade!

‘Brigado Vera, por ter me criado!
Te amo de coração, comunidade querida!
É! Ê chão vermelho bonito!

“Belo Horizonte de meu tempo”: uma crônica de Fernando Sabino

Fernando Sabino por José Carlos Paiva. Acervo do SLMG / Imprensa Oficial
Fernando Sabino por José Carlos Paiva. Acervo do SLMG / Imprensa Oficial

“Da praça da liberdade ao bar do ponto

Belo Horizonte de meus 20 anos. Das meninas da Praça da Liberdade às mulheres da Praça da Estação. Como num verso de Otávio Dias Leite. O footing das quintas e domingos. Se a menina olhava na primeira volta, estava flertando. Se virava a cabeça, estava dando quebra. Podia-se abordar e ir para o lado dos namorados, sem pau-de-cabeleira. E se sentar no banco dividido com outro casal, passar discretamente o braço por cima do encosto num simulacro de abraço. Jamais segurar na mão então já estariam noivos.

E havia o lado dos pretos. Dallas de Minas já surgindo por sobre as ruínas de Curral del Rei.

Às 10 horas da noite a praça de súbito se esvaziava. Desceremos Bahia ou João Pinheiro? Ali na esquina do pisca-pisca é a pensão da dona Naná, mãe do Newton Bahia, onde morava o Bilac Pinto, sem parentesco com outros Pintos, os irmãos Edmuno e Fausto. Se descermos João Pinheiro, passaremos em frente ao condado dos Guimarães, que vai até a esquina. Mais além é a casa do Marco Paulo, filho de David Rabelo, o que fazia mulher virar homem com seu célebre bisturi. E logo adiante o Grupo Afonso Pena: dona Salomé, dona Maria Isabel, Hélio Pelegrino cutucando a gorda Maria Helena na fila do recreio, e Diva Dias pisando os astros distraída, escudada pela graça das gêmeas Naves – Lourdes e Mercês. Do outro lado a famosa casa mal-assombrada. Era a própria residência da moça fantasma, aquela que saiu a perseguir o poeta Carlos até a estrada do Acaba-Mundo. Antes de chegar ao outro pisca-pisca, a velha Faculdade de Direito, com Arduino Bolivar e tudo. Você publicou um livro? Perguntou-me um dia o querido mestre. E como eu confirmasse, sacudiu a cabeça, condescendente: eu quando era moço também escrevi muita bobagem.

(…)

O bar do Ponto

Ali diziam ter sido o Cinema Odeon, não era do meu tempo. De meu tempo era a Folha de Minas, no sobrado onde morava antes o Silviano Brandão: o Monzeca, o Pacheco, o Tip-Top, o Newton Prates, o Calazans, o Jair Rebêlo Horta. A Leiteria Brasil, na esquina fronteira, onde se reunia a turma do basquete depois dos jogos na quadra do América: Helvécio e Chichico Ferreira de Carvalho, Ze Vaz, Marruco… Às vezes era o prosador Elias Johany, com sua incomensurável e simpática chatice, para arrancar do bolso e nos mostrar um artigo que terminava sempre com a frase que servia de título.

Bar do Ponto. Havia aqui um abrigo de bondes com uma venda em cada canto, onde se barganhavam figurinhas de balas holandesas. E o Bar do Ponto propriamente dito, ao lado da Oliveira & Costa e da Sapataria Para Todos, onde Ermílio Curtiss Lima tinha sempre um sorriso para todos. E o Café Íris, de saudosa memória.

Se quisermos ir à Praça da Estação, evitemos a Avenida, ou não chegaremos nunca. Continuemos na Rua da Bahia, como se fôssemos à Floresta, a vida é esta: subir Bahia e descer Floresta. Mas para que irmos à Praça da Estação, se ninguém vai chegar pelo Rápido? Fiquemos por aqui mesmo, no Bar do Ponto. É possível que apareça alguém da turma do Diário, como o Edgar, o Etienne ou o Milton Amado. Ou alguém de outro tempo, como o João Dornas ou o Emílio Moura, figuras nascidas apenas da lembrança, feitas de ar e imaginação.”

(Texto publicado no suplemento especial “Minas Além da Montanha”, do Jornal do Brasil, em 31 de outubro de 1972. Documento presente no Acervo de Escritores Mineiros –Acervo Murilo Rubião – Série Noticiário – Subsérie Noticiário: Notas e ref. Arq. 1/ Gav 1/ Pasta 01 – docs 111 a 143.)

Um agradecimento especial ao Roniere Menezes, que indicou o texto.

 

As várias faces de Belo Horizonte na escrita de Beatriz de Almeida Magalhães

Beatriz de Almeida Magalhães Crédito: Divulgação
Beatriz de Almeida Magalhães
Crédito: Divulgação

“O véu fino que me regou a infância e a adolescência tornou-se grossa rede ao se lançar sobre minha juventude tropical. Chove cordas no verão aquoso do Brasil. Nada é sólido. Nada acontece. O jorro contínuo da água. Pancadas secas no relógio da Matriz. Badaladas graves nos sinos de seu par de torres, repiques argentinos na Capela do Rosário. Surdas explosões de dinamite nas pedreiras ao longe. Belo Horizonte não existe: nem belo nem horizonte!”

(CASO OBLÍQUO, 2009)

Ilustração de Beatriz para a capa do Suplemento Literário de Minas Gerais, número 22, de 28 de janeiro de 1967
Ilustração de Beatriz para a capa do Suplemento Literário de Minas Gerais, número 22, de 28 de janeiro de 1967

No fundamental “Belo Horizonte: um espaço para a República” (Ed. UFMG, 1989), livro que assina juntamente com Rodrigo Ferreira Andrade, Beatriz de Almeida Magalhães é apresentada como arquiteta e artista plástica. Mas Beatriz, claro, não coube apenas nas duas vocações. Assim, suas incursões na pesquisa acadêmica e na escrita ficcional ampliaram sua presença marcante naqueles textos relacionados com a cidade de Belo Horizonte.

Ela começou com a pesquisa que resultou no já citado “Belo Horizonte: um espaço para a República”. Daí, naturalmente, a partir das ruas percorridas para fotografar remanescentes da cidade original, derivou um ensaio poético sobre o encontro de uma escrita surpreendente, errante e efêmera, dela a motivação para a ficção romanesca, com o lançamento de “Sentimental com filtro” (2003) e “Caso oblíquo” (2009), ambos pela editora Autêntica.

Defendeu a tese “Poetopos: cidade, código e criação errante”, na qual é abordada a construção ideológica, conceitual e material da cidade propriamente dita e a construção literária que se faz paralela, em resposta, igualmente constitutiva de Belo Horizonte.

Doutora em Letras e bacharel em Arquitetura pela UFMG e bacharel em Artes pela UEMG, professora visitante de Teoria da Literatura na FALE durante o ano de 2014 e em 2015 temporariamente contratada pelo IEC/PUC para a disciplina Arte e Poéticas Tecnológicas, Curso de Especialização em História da Arte Contemporânea, Beatriz tem outras publicações ligadas à capital mineira como tema, seja como autora ou co-autora.

Vale a pena conhecer essa produção, aqui listada:

-“Memorabilia da casa do Azevedo” (Márcia Charnizon, Autêntica, 2014)

-“Arquitetura Gustavo Penna Impressões” (Gustavo Penna, BEĨ, 2013)

-“Traição de propósito: à luz do micro-ondas”, “Belo Horizonte 24 autores” (conto, Mazza, 2012)

-“Belo Horizonte: ponto de inflexão na história urbana brasileira”, Olhar multidisciplinar sobre a efetividade da proteção do patrimônio cultural (ensaio, Fórum, 2011)

-Caso oblíquo (Prêmio Programa Petrobras Cultural 2007, romance, Autêntica, 2009)

Poetopos: cidade, código e criação errante (tese, UFMG, 2008);

-Sentimental com filtro (I Prêmio Nacional Vereda Literária 2002, romance, Autêntica, 2003)

-“A formação da cidade”, Arquitetura da modernidade (ensaio, UFMG, 1998)

-“ReGIZtros Efêmeros”, Zap Cultural (ensaio poético e fotográfico, Secretaria Municipal de Cultura /Ciclope, n.1, 1996. CD-ROM)

-“Belo Horizonte, o Barroco e a Utopia: uma viagem na materialidade”. Arquitetura, Cadernos de Arquitetura e Urbanismo (ensaio, PUCMG, 1994)

-Belo Horizonte: um espaço para a República (UFMG, PRO-EX, 1989).

Formandos do Colégio Estadual Curso Clássico 1962. Crédito: Arquivo pessoal / Beatriz de Almeida Magalhães
Formandos do Colégio Estadual Curso Clássico 1962.
Crédito: Arquivo pessoal / Beatriz de Almeida Magalhães

“Na infância sem pecado daquele lugar de engorda de bois no colo da serra, o ajuntamento do Curral d’El Rei, de enfermiça gente, que nem suspeita do seu devir, tendo logo adiante as velhas paragens da conferência do gado, Contagem das Abóboras. A freguesia endêmica. Papudópolis, o povoado endogâmico, Cretinópolis. O curral, estrume e estruma, de mais nenhum rei, o republicano Arraial do Bello Horizonte. A cidade desenho da Res publica, Cidade de Minas. A Nova Capital, positivista. Belo Horizonte, cidade jardim, com seu sol heráldico espremendo-se de todo o caldo, de todo o suco, de todo o sumo, o zesto todo macerado. Mas não é mais esse o sol que veem, fruto onírico. Aterraram (…)”

(SENTIMENTAL COM FILTRO, 2003)

Wilson Baptista, o poeta da imagem

Emílio Moura por Wilson Baptista, 1939. O poeta aparece desenhando uma caricatura de Cyro dos Anjos
Emílio Moura por Wilson Baptista, 1939. O poeta aparece desenhando uma caricatura de Cyro dos Anjos

Wilson Baptista é um fantástico personagem de Belo Horizonte. Fotógrafo , grande parte de seu acervo reúne algumas das mais belas imagens da capital mineira das primeiras décadas – incluindo aí aquela em que viviam os modernistas.

Nascido em 1913, em Belo Horizonte, advogado, Baptista ficou viúvo aos 80 anos. Aos 95, casou-se novamente. Morreu em 2014, deixando oito filhos, além de mais de 20 netos e bisnetos.

Em homenagem a Wilson, publicamos um texto do jornalista João Pombo Barile, além de fotos de escritores, gentilmente cedidas por seu filho, Paulo Baptista.

Cyro dos Anjos com filha ao piano por Wilson Baptista, 1940. Cyro é autor de um dos livros fundamentais da literatura brasileira,
Cyro dos Anjos com filha ao piano por Wilson Baptista, 1940. Cyro é autor de um dos livros fundamentais da literatura brasileira, “O amanuense Belmiro”

“Próximo de completar um centenário de vida no próximo mês de julho, o fotógrafo Wilson Baptista não é, nem de longe, o protótipo do velinho aposentado, melancólico ou cabisbaixo e que fica em casa reclamando do mundo. Pelo contrário. Entusiasmado, sempre feliz, ele adora conversar. “Tenho sangue Caiapó. E isto talvez explique um pouco esta minha animação e vontade de viver”, afirma o fotógrafo logo na entrada de sua casa.

E foi assim, com uma grande vontade de prosear, que seu Wilson recebeu a reportagem, durante mais de duas horas. Sempre muito bem disposto, e contado muitos casos, ele mostrou um pouco do seu acervo fotográfico. E que pode ser resumido numa palavra: sensacional.

Apesar de ter se formado advogado, naquele distante ano de 1937 pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o amor pela fotografia sempre esteve presente na vida deste belo-horizontino. Trabalhando primeiro como funcionário da prefeitura, e mais tarde em cartório, o cotidiano do trabalho burocrático nunca impediu que seu Wilson abandonasse sua maior paixão: a fotografia. Paixão que faria com que ele acabasse formando um dos mais importantes acervos da história de nossa cidade. Fotos que ajudam a contar a história dos últimos oitenta anos da capital.

João Etienne Filho por Wilson Baptista, 1939. Formador de várias gerações de escritores, João Etienne foi um dos maiores agitadores culturais de Belo Horizonte
João Etienne Filho por Wilson Baptista, 1939. Formador de várias gerações de escritores, João Etienne foi um dos maiores agitadores culturais de Belo Horizonte

“Belo Horizonte era muito diferente do que é hoje”, conta o artista. “A cidade muito menor e não era todo mundo que fotografava”, relembra para em seguida emendar. “Sempre me considerei um fotógrafo amador. O pessoal me pedia para fazer uns retratos e tal. E eu não podia negar, né?”, afirma de maneira modesta.

Rapidamente seu Wilson nos convida para conhecer o seu acervo e que conta hoje com mais de 10 mil imagens. Fotógrafo das antigas, afinal suas primeira clicadas foram dadas ainda nos anos 1930, entro no seu estúdio de edição crente que passarei várias horas do dia perdido no meio de rolos antigos a procura das melhores fotos para ilustrar esta matéria.

Ledo engano: organizadíssimo, o fotógrafo aos poucos vai revelando seu precioso tesouro. Pequeno detalhe: num poderoso Mac e que ele manuseia com a habilidade de um garoto de quinze anos que fica o dia inteiro na internet. Clica dali, clica daqui, na tela vão surgindo dezenas de fotos digitalizadas e que ajudam a reconstituir parte importante de Belo Horizonte. Muitas feitas há mais de 70 anos. Todas devidamente numeradas e catalogadas. “Sempre gostei de computador. Divirto-me muito com estas engenhocas”, afirma ao explicar tanta intimidade com o mundo digital.

Das lentes da máquina do seu Wilson podemos ver momentos importantes da história da nossa cidade. Tendo começado a fotografar em 1932, ele registraria, por exemplo, a inauguração das avenidas Antônio Carlos e Amazonas e a construção do Conjunto JK, do Colégio Estadual Central e do edifício do Bemge. Em 1939, convidado pelo prefeito José Osvaldo de Araujo, ele monta um álbum sobre Belo Horizonte para o I Congresso Brasileiro de Urbanismo. Seu Wilson sobrevoa então a cidade em um pequeno avião do correio aéreo. As primeiras imagens aéreas da nossa capital. “Até hoje me lembro do medo que passei dentro do avião”, conta. “O piso da aeronave era de lona e a gente ficava o tempo todo balançando”.

Jose Carlos Lisboa por Wilson Baptista. José Carlos, um dos mais refinados críticos de sua geração, escreveu o
Jose Carlos Lisboa por Wilson Baptista. José Carlos, um dos mais refinados críticos de sua geração, escreveu o “Pequeno Guia da Literatura Universal”

Embora só recentemente a mídia tenha se interessado pelo trabalho de Wilson Baptista, seu papel na cena fotográfica mineira é antigo. E sua atuação no Foto Clube de Minas Gerais, do qual foi um dos fundadores e o primeiro presidente ainda na década de 1950, foi fundamental para nossa cidade.

A qualidade de seu trabalho anteciparia muito do que viria a caracterizar a fotografia brasileira nas décadas de 1940 e 1950. E exibições como a mostra coletiva realizada, no ano passado, pela Fundação Clóvis Salgado, e duas retrospectivas – uma na Casa do Baile, em 2007, e no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em 2000 –, tem servido como um reconhecimento, ainda que tardio da obra do grande fotógrafo mineiro.

Humilde, mineiramente, seu Wilson se diverte com o reconhecimento, bastante tardio, que seu trabalho vem recebendo nos últimos anos com exposições em várias partes da cidade. “Fico feliz que as pessoas me procurem e que gostem do meu trabalho. Sinceramente não esperava este reconhecimento não”, afirma o artista que prepara um livro para comemorar os cem anos de vida.

Longa vida para este grande artista mineiro.”

(Texto de João Pombo Barile. Publicado na revista Encontro, em 2013)