Pedro Nava: conversa com a Memória em pessoa

Pedro Nava: "um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais" Crédito: Reprodução
Pedro Nava: “um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”
Crédito: Reprodução

A uns amei, a outros estimei, aborreci alguns, alguns mal conheci – mas todos! Ai! Todos me impregnaram de suas vidas-águas como se fosse uma esponja.”

(Pedro Nava, Galo das Trevas)

Certa vez, Carlos Drummond de Andrade contou que, quando estava com o poeta Dantas Motta, ele tinha a “sensação de estar conversando com alguém que, sob a aparência de Dantas, se chamava Minas Gerais. Era Minas dialogando comigo, com sua fala especial, seu cigarro de palha”.

De igual modo, podemos imaginar que, ao lermos Pedro Nava (1903-1984), chega-nos a sensação de estar com alguém que, sob a aparência de Nava, se chamava Memória. É a Memória em pessoa se abrindo conosco, enredando lembranças e fundando mundos.

Em 2012, a Companhia das Letras relançou Baú de ossos, Balão cativo, Chão de ferro, Beira-mar, Galo das Trevas e O círio perfeito, os seis volumes de uma das mais importantes obras de memorialística da literatura brasileira. A imprensa destacou o evento, como o caderno “Pensar”, do Estado de Minas, que dedicou a edição de 10 de março daquele ano ao evento.

O então editor do suplemento, João Paulo Cunha, elaborou um roteiro para cada um dos livros, que reproduzimos a seguir.

bau de ossos

BAÚ DE OSSOS (1972)

“‘Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais’. Assim começa o primeiro livro da série memorialística de Pedro Nava. Nele, o autor fala da infância em Juiz de Fora, da transferência da família para o Rio de Janeiro e vai até a morte do pai,m em 1911, que marca o retorno da família a Juiz de Fora. O livro é dividido em quatro capítulos, que trazem no nome a indicação geográfica. Os dois primeiros, Setentrião e Caminho Novo, trazem informações sobre os dois ramos da família do memorialista, o lado paterno (do Ceará e Maranhão) e o materno (de Minas Gerais). Os dois capítulos que complementam o primeiro volume, Paraibuna e Rio Comprido, narram a infância de Nava em Juiz de Fora e no Rio de Janeiro.”

balao cativo

BALÃO CATIVO (1973)

“O personagem central é o menino Pedro Nava. Todo o livro é dedicado a recuperar a infância, o que lhe dá sabor especial e lugar de destaque no projeto proustiano do autor. Retomando o Caminho Novo, a volta de Minas Geais depois da morte do pai, José Nava, a família em pouco tempo se transfere para Belo Horizonte, onde Nava entra como interno no Colégio Anglo-Mineiro. O colégio interno vai ser um destino (como alude o título do livro) e depois de anos em BH, Pedro Nava é internado no Colégio Pedro II, em sua volta ao Rio de Janeiro. São 4 capítulos: Morro do Imperador, Serra do Curral (este, como o nome indica, centrado na capital mineira), Engenho Velho e Morro do Barro Vermelho.”

chao de ferro

CHÃO DE FERRO (1976)

“A experiência no Colégio Pedro II, no Campo de São Cristóvão, abre o livro, que vai até 1921, quando Pedro Nava vem novamente para Belo Horizonte para estudar medicina. O memorialista fala da paixão pela cultura francesa, marcante em sua geração, e da leitura de Proust, sua mais importante influência literária. Em Chão de Ferro, um primo do narrador, Egon ou Zegão, aparece pela primeira vez. Ele voltará, como alter ego do autor, no quinto volume das memórias. O volume traz ainda texto escrito em 1952 para homenagear os 50 anos de Carlos Drummond de Andrade (“Evocação da Rua da Bahia”)”

baira mar

BEIRA-MAR (1978)

“Logo no primeiro capítulo, ‘Bar do Ponto’, se situa a geografia sentimental do quarto volume das memórias, todo ele passado em Belo Horizonte enrte 1921 e 1930. É o tempo da militância literária, dos primeiros grupos modernistas da cidade que cresce e se torna cosmopolita, contra o conservadorismo típico da época. O livro traz ainda as reminiscências da Escola de Medicina, com suas aulas (anatomia, clínica propedêutica, microbiologia), mestres (Zoroastro Viana Passos, Marcelo dos Santos Libânio, Otávio Coelho de Magalhães, Eduardo Borges da Costa) e colegas (entre eles Juscelino Kubitschek). Historiador da medicina brasileira, Pedro Nava faz análises primorosas do ensino médico. Fora dessa campo, Milton Campos e Carlos Drummond de Andrade são referências marcantes nesse período da vida de Pedro Nava. É o mais belo-horizontino dos livros do autor.”

galo das trevas

GALO DAS TREVAS (1981)

“O primeiro capítulo (‘Jardim da Glória, à beira mar plantado’) interrompe o fluxo cronológico dos primeiros quatro volumes, abrindo espaço para o presente do memorialista, que fala do Rio de Janeiro. (…) Na sequência, retoma a cronologia, ambientando a narração novamente em Belo Horizonte, depois de sua formatura, em época marcada pela preparação da Revolução de 30. Depois do Nava genealogista, artista, cientista, modernista, entra em cena o homem político. Ganha espaço o alter ego literário Egon.

o cirio perfeito

O CÍRIO PERFEITO (1983)

“Último volume em vida, cobre o período de 1930 a 1940. o primeiro capítulo, ‘Belorizonte Belo’, é uma descrição da capital mineiro no momento da Revolução de 30, com cenas de tiroteio e feridos. Nava fala de sua experiência como professor, a saída de Minas para o interior de São Paulo depois do suicídio de sua noiva, Lenora, até o retorno ao Rio de Janeiro, em 1933, quando se estabelece como reumatologista.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s