Livros de Lino de Albergaria passeiam pela capital mineira

Dentro da noite belo-horizontina, procuro o Palácio das Artes. Um navio branco ancorado no mar escuro do Parque Municipal. Ele não pode partir. Não quero ouvir a sirene anunciando sua despedida. Nem quero vê-lo, da calçada da avenida Afonso Pena, lentamente se afastar, tragado pelas árvores, transformadas numa sombra confusa, aquosa.

(Lino de Albergaria. Um bailarino holandês, 2015).

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Lino de Albergaria publicou seu primeiro livro, Cinco anos sem chover (Ed. FTD), em 1985. Como grande parte de sua produção, que então se iniciava, o livro é voltado para o público juvenil. Em 2015, Lino comemora, portanto, 30 anos de literatura, lançando no próximo sábado (22/8/15) dois romances de uma só vez – ambos voltados para o público adulto –, Os 31 dias e Um bailarino holandês (Scriptum). Esses livros têm em comum o fato de se situarem em Belo Horizonte.

Em três décadas publicou 76 originais e seis adaptações – Lino é um sucesso inquestionável entre o público infantojuvenil, com cerca de 2,5 milhões de livros vendidos. No mês que vem sai mais um original voltado para esse público, pela Editora Atual: “Chá das cinco”, completando 83 publicações por 24 editoras diferentes, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Belo Horizonte, como a Globo, Melhoramentos, Formato, Saraiva, Paulus, L&PM, Ediouro, Larousse e SM.

Desse total, há quatro romances voltados para o público adulto. Além do lançamento duplo desta semana, os dois primeiros – (Em nome do filho (1992) e A estação das chuvas (1994) – foram lançados pela editora Lê e reeditados pela Scriptum em 2012.

Lino de Albergaria Crédito: Divulgação
Lino de Albergaria
Crédito: Divulgação

Seu livro A estação das chuvas começa no Parque Municipal e termina na Praça do Papa. O tema é um triângulo amoroso que acontece na cidade, entre as chuvas do verão. Um dos lados do triângulo é um historiador da cidade, que colhe anotações para um ensaio. Seu ponto de partida é o Parque, onde provisoriamente morou Aarão Reis, que projetava a cidade. O personagem é descendente de uma família do Curral del Rei, que teve seus habitantes expulsos de suas casas para a construção da nova capital de Minas. O texto passeia por algumas paisagens, como a Pampulha e a serra do Curral, mas se detém bastante no centro, especialmente na Avenida Afonso Pena, por tantos anos o eixo vibrante da cidade.

O bailarino holandês se passa no Palácio das Artes, entre a livraria e o Grande Teatro. Na livraria, o vendedor vê um cliente manuseando um álbum de fotografias de Belo Horizonte. Disfarçadamente, ele abre outro exemplar enquanto observa o interesse do cliente por certas ruas e construções. Na medida em que imita a leitura do outro, vai imaginando um personagem para um livro que escreve mentalmente, seguindo o homem que lê à sua frente por um trajeto que os locais fotografados evocam. “Só não pode supor que aquele indivíduo tem uma vida própria, em nada parecida com a que foi fantasiada para ele e que, no recinto do teatro, enquanto uma companhia holandesa dança uma música de Tom Jobim, Insensatez, o leitor e o jovem livreiro cruzarão efetivamente seus caminhos”.

Em Os 31 dias, uma mulher passa um mês num sítio que lhe foi emprestado e se propõe a escrever um livro nesse período de tempo. Com um computador e a internet, cria um cenário de aparência real para que possa simular uma existência paralela. “É assim que, pelo anúncio de uma imobiliária, descobre um apartamento para alugar na Praça Marília de Dirceu (simpatiza com o nome do local, ao descobrir que o nome oficial do lugar é Praça João Alves, o que proporciona uma identidade dúbia para o próprio espaço), e instala-se virtualmente naquele lugar onde inventa um passado e depois um presente para si mesma. São fotos do passado e do presente de Belo Horizonte que compõem a insólita ambientação de um mudo ficcional em uma cidade concreta, ainda recente na idade, mas constantemente transformada pelo tempo”, diz o escritor.

*

A casa da minha infância já posso desmanchar, retirá-la da Rua Antônio Aleixo e devolvê-la para seu lugar original, de onde me disponho a espiá-la, obliquamente, de minha varanda.
A Praça Marília de Dirceu permanece despovoada, sem outra alma viva além da minha, mas naquela casa há uma luz acesa. Mesmo que venha da tela de uma televisão que alguém esqueceu ligada.
(Lino de Albergaria. Os 31 dias, 2015).

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