O poeta que colocou os mastodontes na sala de espera

Bruno Brum por Mauro Figa (2014).
Bruno Brum por Mauro Figa (2014).

DISCURSO POR OCASIÃO DE UM CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESSOAS JURÍDICAS

Nunca conversei com uma empresa.
As empresas estão sempre ocupadas e não costumam falar com estranhos.
Nunca trabalhei em uma empresa.
As empresas almoçam todos os dias no self-service mais próximo e falam diversas línguas com perfeição.
Nas empresas há pessoas que seguram copos de uísque como se segurassem caralhos.
Nas empresas há pessoas que se masturbam no banheiro no horário do almoço.
Trabalho na mesma empresa há muitos anos. Dormimos na mesma cama e todas as noites ela abre as pernas para mim.
As empresas estão sempre abertas e de bom humor.
As empresas sempre dizem bom dia, boa tarde, boa noite.
Há sempre muitas empresas à disposição quando preciso, por isso não me preocupo.

As empresas dizem todos os dias que não devo me preocupar, mas eu já não me preocupava bem antes de elas dizerem isso.
As empresas sabem todos os meus segredos, mas não os revelam a ninguém.
As empresas sempre sabem o que fazer em qualquer situação.
Por isso não me preocupo.
Há pessoas que insistem em discutir o sexo das empresas.
E também as que preferem não tocar no assunto.
Empresas nunca ficam sem assunto. São capazes de conversar durante horas sobre qualquer coisa.
Empresas nunca perdem o sentido ou a razão.
Empresas nunca se atrasam.
Todos sabem onde vivem as empresas. Elas estão sempre abertas e de bom humor.
Trabalho na mesma empresa há muitos anos e até hoje não sei o seu nome, função, razão social ou CNPJ, mas não a culpo por isso.
As empresas estão sempre ocupadas, todos os dias, incluindo finais de semana e feriados religiosos.
Empresas possuem bordões e usam sempre as mesmas fantasias, como os super-heróis.
Empresas acabam e recomeçam todos os dias, como as novelas e os seriados.
Trabalhei em uma empresa durante dezoito semanas e faltei todos os dias.
Eu sei como funcionam as empresas, mesmo sem nunca ter estado nelas.
Empresas sempre funcionam.
Há pessoas que se dedicam ao estudo do comportamento das empresas.
Há empresas que se destacam por apostar no potencial das pessoas.
Geri diversas empresas imaginárias na infância. Nenhuma faliu.
As empresas podem ser de diversos tamanhos, como os cães, as pizzas e as estrelas.
Todos os dias acordo cedo e caminho até a porta de uma empresa, mas não entro.
Não tenho uma ideia clara do que possa ser uma empresa.
Algumas empresas se parecem com famílias.
Algumas famílias se parecem com empresas.
Especula-se a existência de empresas em outros planetas do Sistema Solar.
Estima-se que fóssil com idade aproximada de cinquenta mil anos possa pertencer à mais antiga empresa do mundo.
Empresas sempre dizem a verdade.
Empresas nunca se divertem.
Me lembro com nitidez da primeira vez em que conheci uma empresa.
Não costumo falar com empresas estranhas.
Nunca pisei em uma empresa.
Empresas não falam sozinhas.
Meu primeiro presente de aniversário foi uma empresa.
A maternidade onde nasci era na verdade uma empresa.
Algumas pessoas conversam com empresas como se fossem pessoas.
Algumas empresas conversam com pessoas como se fossem empresas.
Nunca conversei com uma empresa.
Nunca conversei com uma pessoa.

Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte, em janeiro de 1981. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007) e Mastodontes na sala de espera (2011, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2010). Traduziu poemas de Jerome Rothenberg, John Ashbery, Vicente Huidobro, Roberto Bolaño e Leopoldo María Panero. É, ao lado de Ana Elisa Ribeiro, editor da coleção Leve um Livro, que distribui gratuitamente livretos de poetas contemporâneos nas ruas de Belo Horizonte. Tem poemas, traduções e textos críticos sobre sua obra publicados em diversos periódicos brasileiros, em mídia impressa e virtual.

Divulgação do projeto Coleção Leve um Livro, em 2014. Bruno Brum e Ana Elisa Ribeiro. Foto: Mauro Figa
Divulgação do projeto Coleção Leve um Livro, em 2014. Bruno Brum e Ana Elisa Ribeiro. Foto: Mauro Figa

Leia aqui o livro Mastodontes na sala de espera.

A primeira crônica de Drummond no “Estado de Minas”, 1934

Carlos Drummond de Andrade Crédito: Arquivo Imprensa Oficial / SLMG
Carlos Drummond de Andrade
Crédito: Arquivo Imprensa Oficial / SLMG

CONHEÇO UM PAIZ

Conheço um paiz em que as árvores crescem com uma rapidez e uma força espantosas. No espaço de alguns minutos ellas sobem, arredondam as copas, enchem-se de flores e dão aos tropeiros e vagabundos que passam grandes fructas vermelhas e summarentas. A velocidade com que tudo isto se desenrola torna accidentada a colheita e muitos desastres se verificam, muitas disputas se travam sob a protecção desta sombra que se multiplica a proporção que as palavras se cruzam ríspidas no ar. No campo vastíssimo as sementes não fazem senão germinar com um impeto constante e o horizonte dia a dia se afoga sob a profusão de galhos entrecruzados. Hontem o sol penetrou a custo na ramaria densa onde dizem que nenhum passaro conseguiu ainda fazer o seu ninho precario. Será que natureza está disposta a continuar neste jogo violento?”

(Trecho da primeira crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no “Estado de Minas”, em 28 de outubro de 1934)

Pedro Nava: conversa com a Memória em pessoa

Pedro Nava: "um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais" Crédito: Reprodução
Pedro Nava: “um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”
Crédito: Reprodução

A uns amei, a outros estimei, aborreci alguns, alguns mal conheci – mas todos! Ai! Todos me impregnaram de suas vidas-águas como se fosse uma esponja.”

(Pedro Nava, Galo das Trevas)

Certa vez, Carlos Drummond de Andrade contou que, quando estava com o poeta Dantas Motta, ele tinha a “sensação de estar conversando com alguém que, sob a aparência de Dantas, se chamava Minas Gerais. Era Minas dialogando comigo, com sua fala especial, seu cigarro de palha”.

De igual modo, podemos imaginar que, ao lermos Pedro Nava (1903-1984), chega-nos a sensação de estar com alguém que, sob a aparência de Nava, se chamava Memória. É a Memória em pessoa se abrindo conosco, enredando lembranças e fundando mundos.

Em 2012, a Companhia das Letras relançou Baú de ossos, Balão cativo, Chão de ferro, Beira-mar, Galo das Trevas e O círio perfeito, os seis volumes de uma das mais importantes obras de memorialística da literatura brasileira. A imprensa destacou o evento, como o caderno “Pensar”, do Estado de Minas, que dedicou a edição de 10 de março daquele ano ao evento.

O então editor do suplemento, João Paulo Cunha, elaborou um roteiro para cada um dos livros, que reproduzimos a seguir.

bau de ossos

BAÚ DE OSSOS (1972)

“‘Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais’. Assim começa o primeiro livro da série memorialística de Pedro Nava. Nele, o autor fala da infância em Juiz de Fora, da transferência da família para o Rio de Janeiro e vai até a morte do pai,m em 1911, que marca o retorno da família a Juiz de Fora. O livro é dividido em quatro capítulos, que trazem no nome a indicação geográfica. Os dois primeiros, Setentrião e Caminho Novo, trazem informações sobre os dois ramos da família do memorialista, o lado paterno (do Ceará e Maranhão) e o materno (de Minas Gerais). Os dois capítulos que complementam o primeiro volume, Paraibuna e Rio Comprido, narram a infância de Nava em Juiz de Fora e no Rio de Janeiro.”

balao cativo

BALÃO CATIVO (1973)

“O personagem central é o menino Pedro Nava. Todo o livro é dedicado a recuperar a infância, o que lhe dá sabor especial e lugar de destaque no projeto proustiano do autor. Retomando o Caminho Novo, a volta de Minas Geais depois da morte do pai, José Nava, a família em pouco tempo se transfere para Belo Horizonte, onde Nava entra como interno no Colégio Anglo-Mineiro. O colégio interno vai ser um destino (como alude o título do livro) e depois de anos em BH, Pedro Nava é internado no Colégio Pedro II, em sua volta ao Rio de Janeiro. São 4 capítulos: Morro do Imperador, Serra do Curral (este, como o nome indica, centrado na capital mineira), Engenho Velho e Morro do Barro Vermelho.”

chao de ferro

CHÃO DE FERRO (1976)

“A experiência no Colégio Pedro II, no Campo de São Cristóvão, abre o livro, que vai até 1921, quando Pedro Nava vem novamente para Belo Horizonte para estudar medicina. O memorialista fala da paixão pela cultura francesa, marcante em sua geração, e da leitura de Proust, sua mais importante influência literária. Em Chão de Ferro, um primo do narrador, Egon ou Zegão, aparece pela primeira vez. Ele voltará, como alter ego do autor, no quinto volume das memórias. O volume traz ainda texto escrito em 1952 para homenagear os 50 anos de Carlos Drummond de Andrade (“Evocação da Rua da Bahia”)”

baira mar

BEIRA-MAR (1978)

“Logo no primeiro capítulo, ‘Bar do Ponto’, se situa a geografia sentimental do quarto volume das memórias, todo ele passado em Belo Horizonte enrte 1921 e 1930. É o tempo da militância literária, dos primeiros grupos modernistas da cidade que cresce e se torna cosmopolita, contra o conservadorismo típico da época. O livro traz ainda as reminiscências da Escola de Medicina, com suas aulas (anatomia, clínica propedêutica, microbiologia), mestres (Zoroastro Viana Passos, Marcelo dos Santos Libânio, Otávio Coelho de Magalhães, Eduardo Borges da Costa) e colegas (entre eles Juscelino Kubitschek). Historiador da medicina brasileira, Pedro Nava faz análises primorosas do ensino médico. Fora dessa campo, Milton Campos e Carlos Drummond de Andrade são referências marcantes nesse período da vida de Pedro Nava. É o mais belo-horizontino dos livros do autor.”

galo das trevas

GALO DAS TREVAS (1981)

“O primeiro capítulo (‘Jardim da Glória, à beira mar plantado’) interrompe o fluxo cronológico dos primeiros quatro volumes, abrindo espaço para o presente do memorialista, que fala do Rio de Janeiro. (…) Na sequência, retoma a cronologia, ambientando a narração novamente em Belo Horizonte, depois de sua formatura, em época marcada pela preparação da Revolução de 30. Depois do Nava genealogista, artista, cientista, modernista, entra em cena o homem político. Ganha espaço o alter ego literário Egon.

o cirio perfeito

O CÍRIO PERFEITO (1983)

“Último volume em vida, cobre o período de 1930 a 1940. o primeiro capítulo, ‘Belorizonte Belo’, é uma descrição da capital mineiro no momento da Revolução de 30, com cenas de tiroteio e feridos. Nava fala de sua experiência como professor, a saída de Minas para o interior de São Paulo depois do suicídio de sua noiva, Lenora, até o retorno ao Rio de Janeiro, em 1933, quando se estabelece como reumatologista.”

Um poema de Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos / Reprodução
Paulo Mendes Campos / Reprodução

VISITA A BELO HORIZONTE

A Otto Lara Resende

Posso viver em qualquer parte.
É sempre uma história.
O tempo impregna os telhados como a própria noite
Ou a morte dentro dos ossos.
O vento esflora os lirismos parados.
Vem dos lagos ingênuos
Uma razão de plantas maceradas.

(…)

A Praça da Liberdade tem palmeiras incorruptíveis.
Debaixo rasteja um vento da terra. O vento é meu.
Ele vem dos altos do Cruzeiro.
Onde minha infância respirou o cheiro dos pinheiros,
E vai acabar no Acaba Mundo que eu conheço bem.

Recolho cântaros partidos, ainda vivos de uma vida antiga.
Aqui nascem os poetas. Aqui nasce a madrugada
Para a perplexidade dos desanimados.
Aqui nasce sombra do que fui
Me pedindo contas do que sou.
Soubesse contar a volta do baile,
Aquele mês de setembro, o fervor dos amigos.
Não sei. E todas as emoções são exprimíveis.

(…)

Talvez deva crescer entre as coisas que fui,
Arranhar os muros verdes da serra,
Bater com o punho no bronze de todas as horas,
Porque nesta cidade estou sepultada, ó lágrima,
Palpitando sob os mesmos caminhos das mesmas ilusões.

*

Paulo Mendes Campos (1922 – 1991) – Poeta, tradutor, cronista e jornalista, nasceu em Belo Horizonte, mas se mudou para Dom Silvério com dois anos. Na volta à capital, ele permaneceu entre 1928 e 1933, quando foi para o internato do Colégio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo. Em 1939, o escritor cursou Odontologia, mas abandonou o curso para se tornar cadete em Porto Alegre no ano seguinte. Desistiu da ideia e voltou para a capital mineira em 1941, ficando até 1945, quando foi definitivamente para o Rio de Janeiro, onde morreu 45 anos depois. Foi colaborador assíduo dos principais jornais cariocas e da revista Manchete. Paulo foi autor de mais de 15 livros, como O domingo azul do mar (1958), O cego de Ipanema (1960), Homenzinho na ventania (1962) e O colunista do morro (1965).

A arte da tradução – número especial do SLMG

São Jerônimo, o padroeiro dos tradutores, na concepção do artista plástico Leopoldo Tauffenbach
São Jerônimo, o padroeiro dos tradutores, na concepção do artista plástico Leopoldo Tauffenbach

Excepcionalmente, divulgamos nesta terça (18/8/2015) o número especial do Suplemento Literário de Minas Gerais “A arte da tradução”, organizado pelo jornalista João Pombo Barile. Confira aqui o PDF do especial.

Barile fez um grande trabalho ao reunir 16 profissionais para falar dessa nobre atividade. Um timaço: Ivo Barroso, Augusto de Campos, Leonardo Fróes, Denise Bottmann, Júlio Castañon Guimarães, Marcelo Backes, Ana Helena Souza, Claudio Willer, Afonso Henriques Neto, Jacynto Lins Brandão, Guilherme Gontijo Flores, Ivone Benedetti, Álvaro Faleiros e Mário Alves Coutinho.

Completam a edição entrevistas com Jório Dauster e Paulo Bezerra, além da tradução de cinco poemas de Maiakóvski por Augusto de Campos.

Livros de Lino de Albergaria passeiam pela capital mineira

Dentro da noite belo-horizontina, procuro o Palácio das Artes. Um navio branco ancorado no mar escuro do Parque Municipal. Ele não pode partir. Não quero ouvir a sirene anunciando sua despedida. Nem quero vê-lo, da calçada da avenida Afonso Pena, lentamente se afastar, tragado pelas árvores, transformadas numa sombra confusa, aquosa.

(Lino de Albergaria. Um bailarino holandês, 2015).

*

Lino de Albergaria publicou seu primeiro livro, Cinco anos sem chover (Ed. FTD), em 1985. Como grande parte de sua produção, que então se iniciava, o livro é voltado para o público juvenil. Em 2015, Lino comemora, portanto, 30 anos de literatura, lançando no próximo sábado (22/8/15) dois romances de uma só vez – ambos voltados para o público adulto –, Os 31 dias e Um bailarino holandês (Scriptum). Esses livros têm em comum o fato de se situarem em Belo Horizonte.

Em três décadas publicou 76 originais e seis adaptações – Lino é um sucesso inquestionável entre o público infantojuvenil, com cerca de 2,5 milhões de livros vendidos. No mês que vem sai mais um original voltado para esse público, pela Editora Atual: “Chá das cinco”, completando 83 publicações por 24 editoras diferentes, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Belo Horizonte, como a Globo, Melhoramentos, Formato, Saraiva, Paulus, L&PM, Ediouro, Larousse e SM.

Desse total, há quatro romances voltados para o público adulto. Além do lançamento duplo desta semana, os dois primeiros – (Em nome do filho (1992) e A estação das chuvas (1994) – foram lançados pela editora Lê e reeditados pela Scriptum em 2012.

Lino de Albergaria Crédito: Divulgação
Lino de Albergaria
Crédito: Divulgação

Seu livro A estação das chuvas começa no Parque Municipal e termina na Praça do Papa. O tema é um triângulo amoroso que acontece na cidade, entre as chuvas do verão. Um dos lados do triângulo é um historiador da cidade, que colhe anotações para um ensaio. Seu ponto de partida é o Parque, onde provisoriamente morou Aarão Reis, que projetava a cidade. O personagem é descendente de uma família do Curral del Rei, que teve seus habitantes expulsos de suas casas para a construção da nova capital de Minas. O texto passeia por algumas paisagens, como a Pampulha e a serra do Curral, mas se detém bastante no centro, especialmente na Avenida Afonso Pena, por tantos anos o eixo vibrante da cidade.

O bailarino holandês se passa no Palácio das Artes, entre a livraria e o Grande Teatro. Na livraria, o vendedor vê um cliente manuseando um álbum de fotografias de Belo Horizonte. Disfarçadamente, ele abre outro exemplar enquanto observa o interesse do cliente por certas ruas e construções. Na medida em que imita a leitura do outro, vai imaginando um personagem para um livro que escreve mentalmente, seguindo o homem que lê à sua frente por um trajeto que os locais fotografados evocam. “Só não pode supor que aquele indivíduo tem uma vida própria, em nada parecida com a que foi fantasiada para ele e que, no recinto do teatro, enquanto uma companhia holandesa dança uma música de Tom Jobim, Insensatez, o leitor e o jovem livreiro cruzarão efetivamente seus caminhos”.

Em Os 31 dias, uma mulher passa um mês num sítio que lhe foi emprestado e se propõe a escrever um livro nesse período de tempo. Com um computador e a internet, cria um cenário de aparência real para que possa simular uma existência paralela. “É assim que, pelo anúncio de uma imobiliária, descobre um apartamento para alugar na Praça Marília de Dirceu (simpatiza com o nome do local, ao descobrir que o nome oficial do lugar é Praça João Alves, o que proporciona uma identidade dúbia para o próprio espaço), e instala-se virtualmente naquele lugar onde inventa um passado e depois um presente para si mesma. São fotos do passado e do presente de Belo Horizonte que compõem a insólita ambientação de um mudo ficcional em uma cidade concreta, ainda recente na idade, mas constantemente transformada pelo tempo”, diz o escritor.

*

A casa da minha infância já posso desmanchar, retirá-la da Rua Antônio Aleixo e devolvê-la para seu lugar original, de onde me disponho a espiá-la, obliquamente, de minha varanda.
A Praça Marília de Dirceu permanece despovoada, sem outra alma viva além da minha, mas naquela casa há uma luz acesa. Mesmo que venha da tela de uma televisão que alguém esqueceu ligada.
(Lino de Albergaria. Os 31 dias, 2015).

Sebastião Nunes, o sátiro multimídia

Sebastião Nunes por Guilherme Bergamini (2004)
Sebastião Nunes por Guilherme Bergamini (2004)

ENFISEMA PULMONAR
(Elegia rupestre para Levi Araújo, o menor dos Nunes)

duas e meia da tarde. 10 de junho de 1984
mãos secas. pés juntos. algodoais no nariz.
véu negro sobre o rosto: tímido noivo de verme
rotineira terra roxa sobre o cadáver de cera.

vai embora levi e seus 40 quilos de osso.
vai embora o enfisema. missão cumprida.
vão embora pescarias. cigarros de palha. tosses.
revólver na cintura. carteados. o olho de cobra.

o coveiro sua e pragueja: antes ele do que eu
foi tudo muito rápido. silencioso. sem queixas.
1 metro e 58 e nunca confessou nada. nem a padre.
nunca pediu nada. nunca aceitou nada. nem de deus.

tão pequeno para um orgulho tão grande.
feroz como todos os pequenos. duro como diamante.
até que finalmente tudo passou – e nada.
que diferença faz? séculos ou mitos ou segundos.
grandes ilusões rastejam entre lagartixas.

e então é verdade: então a vida não passa disto:
um sopro: um cisco no olho: um sopro e nada.

*

Sebastião Nunes é caso especial da poesia e da literatura produzidas no país. Especial porque não é só poeta, mas poeta e artista gráfico e editor de seus próprios livros. Sua condição de poeta é indissociável das outras qualificações, e a melhor forma de comprovar isso é ler Antologia Mamaluca, volumes 1 e 2, lançados no final da década de 1980. Neles, Sebastião Nunes reuniu todo o seu trabalho poético, em 21 anos de atividade (de 1968 a 1989, quando pendurou as chuteiras e anunciou ser um ex-poeta).As antologias reúnem oito lançamentos anteriores e mais dois livros inéditos, dispostos, em forma de livro, o que antes saíra como folhetos, cartazes, envelopes recheados de papéis de todas as formas, e “até livros parecidos com livros”: O Suicídio do AtorFinis OperisÚltima Carta da América,PoesiasPapéis HigiênicosA Velhice do Poeta MarginalSerenata em B MenorZovosA Cidade de Deus e Aurea Mediocritas.

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Sebastião Nunes nasceu em 5 de dezembro de 1938, em Bocaiúva, Minas Gerais, filho mais velho de Levi Araújo Nunes e Geralda Oliveira Nunes. Em 1955, mudou-se para a capital mineira. Nos dois anos que se seguem cresce o seu gosto pela leitura e começa a escrever, imitando Humberto de Campos e, em seguida, Graciliano Ramos. Chegou a escrever 35 páginas de um romance no estilo de Vidas Secas, além de plagiar, copiar, pastichar uma infinidade de escritores, pintores e cineastas e se apropriar de tantos outros.

Em 1960, prestou vestibular na Fundação Universidade Mineira de Arte, depois de reprovado três vezes em vestibulares para Medicina. Frequentou o curso de publicidade durante um ano e meio, exatamente a metade. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar em publicidade: de início como tipógrafo, depois sucessivamente como fotógrafo, arte-finalista e diretor de arte.

Quatro anos depois, publicou um conto no “Suplemento Literário” do Estado de S. Paulo e um cartum na revista Senhor, e começou a estudar na Faculdade de Direito da UFMG (formou-se em 1970, mas nunca exerceria a profissão). Em 1966, aproximou-se de jovens escritores daquela época, como Sérgio Sant’Anna, Luís Gonzaga Vieira, Adão Ventura e Jaime Prado Gouvêa. Abandonou a profissão de publicitário definitivamente pela primeira vez (serão cinco abandonos “definitivos” até o último, em 1995). Descobriu simultaneamente os concretistas brasileiros e os beatniks americanos.

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Em 1967 produziu o primeiro poema que considerou satisfatório. Publicou poemas e ensaios curtos no Suplemento Literário do Minas Gerais. No ano seguinte foi publicado seu primeiro livreto, num pequeno caderno de 16 folhas com três poemas, dedicado a Murilo Rubião – guia intelectual, juntamente com Affonso Ávila e Laís Corrêa de Araújo, de toda a sua geração.

O segundo trabalho, A Cidade de Deus, veio a público em 1970: é o primeiro pelo processo de subscrição, que adotará desde então para todos os trabalhos maiores. Três anos depois, passando a morar no Rio de Janeiro, surgiu o livro-envelope Finis Operis, que havia sido recusado pela Editora Civilização Brasileira. Outro fato marcante nesse período é o contato com Clarice Lispector, a quem visita duas vezes.

Em 1975, produziu, para o poeta Affonso Ávila, o livro Cantaria Barroca, primeira experiência na produção de livros para outros autores, atuando como editor e artista gráfico. Na Alemanha, Curt Meyer-Clason publica dois poemas de A Cidade de Deus na antologia Brasilianische Poesie des 20, reunindo 23 poetas brasileiros representativos do século 20. Nos anos seguintes saem mais três publicações: Zovos, em 1977; o livro-cartaz O Suicídio do Ator, em 1978; e Serenata em B Menor, um simples folheto de duas dobras, em 1979, mesmo ano em que passou a viver em Sereno, povoado de 2 mil habitantes próximo a Cataguases, no interior mineiro.

Em 1980, de volta a Belo Horizonte, fundou as Edições Dubolso e publicou Somos Todos Assassinos, primeiro texto em prosa. Pela Dubolso publicará, daí em diante, todos os seus textos e mais de 20 livros de autores jovens inéditos, principiantes ou recusados por grandes editoras.

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Em 1983, é a vez do lançamento de A Velhice do Poeta Marginal. Nessa época, convidado por Murilo Rubião, faz durante dois anos a programação visual do Suplemento Literário do Minas Gerais, em colaboração com Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato, Duílio Gomes e Lucas Raposo. No mesmo ano passou a morar em Sabará, cidade próxima a Belo Horizonte, onde vive desde então. Dois anos depois, outro livro é lançado: Papéis Higiênicos.

A partir de 1989 reescreve (e ilustra) continuamente a História do Brasil, livro iniciado em 1987. O livro é afinal lançado em 1992 -pela editora Dubolso-, depois de recusado pela Companhia das Letras.

Em 1994 foi homenageado pela prefeitura de Belo Horizonte, com um fascículo sobre sua obra, dentro da coleção Mostra Poética de Belo Horizonte; e pelo Giramundo, teatro de bonecos, com a peça Antologia Mamaluca, sob a direção de Álvaro Apocalypse. No ano seguinte lançou livro duplo, contendo a terceira edição de Somos Todos Assassinos e a primeira de Sacanagem Pura.

Em 1996 editou um pseudo-Mais!, cópia graficamente fiel do caderno do mesmo nome da Folha de S. Paulo. Ameaçado de processo, respondeu em carta-aberta, endereçada ao jornal paulista e a mais de 300 escritores e jornalistas brasileiros. O jornal silenciou.

Em 1998 publicou o primeiro volume do Decálogo da Classe Média, que é enviado pelo correio, durante todo o ano, a cerca de 120 intelectuais que o apoiaram de alguma forma nos livros anteriores. Todos os exemplares foram remetidos dentro de um pequeno caixão de defunto. São lançados, ainda, de sua autoria, três livros para crianças:Sapatolices, O ontem que virou hoje e O Peru que nasceu 30 dias antes do Natal. Também participou da Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte, com palestra e a exposição 30 anos de guerrilha cultural e estética de provocaçam.

Em 2000, fundou a Editora Dubolsinho, especializada em textos infanto-juvenis. São editados quatro títulos de sua autoria: Gato no MatoO Rei dos PássarosO Inventor do Xadrez A Cidade das Estrelas.

A Editora Altana, de São Paulo, faz o primeiro lançamento comercial de História do Brasil Somos Todos Assassinos. No mesmo ano, a ensaísta Flora Süssekind, em matéria publicada na Folha de S. Paulo, inclui Decálogo da classe média e História do Brasil entre os livros mais importantes da década; e ocorre o lançamento do vídeo Provocaçam, sobre a obra do poeta, realização de Anna Flávia Dias Sales, entre outros.

Finalmente, de agosto de 2001 até o início deste ano, Sebastião Nunes colaborou com o jornal O Tempo, de Belo Horizonte, com uma coluna quinzenal no caderno de cultura Magazine. Nesse meio tempo, lançou ainda mais uma editora voltada para o público infanto-juvenil, a Aaatchim!

Aí estão, em linhas gerais, algumas sequências dos lances jogados por Sebastião Nunes desde seus primeiros passos na vida e na arte. O jogo está em aberto.

*

(Observação: A reprodução do poema Enfisema pulmonar se deve a uma montagem de Adriano Scandolara, retirada do Escamandro.)

Quando o visível se funde ao imaginado: a prosa de Christiane Tassis

Christiane Tassis Crédito da foto: Vânia Cardoso
Christiane Tassis
Crédito da foto: Vânia Cardoso

“Não posso ver uma montanha que já entro para dentro de mim.
Comecei a caminhar pela cidade. A voz de Camila ecoava, atonal, como se saísse de um iPod invisível: “Basta de tanta nostalgia. Não se pode viver esperando que o passado volte.”
A serra do Curral deixava cair sua sombra verde-musgo pelas ladeiras de Belo Horizonte. Cidade-crepúsculo. Nome de cartão-postal, verso de cartão-postal: tudo em branco, por escrever. Daqui a vinte anos olharei esses prédios novos e feios com a mesma nostalgia que sinto diante desses casarões demolidos?
Uma montanha também pode deixar de ser montanha, dependendo do ponto de vista: geograficamente, é uma montanha; ecologicamente, uma cratera iconograficamente, o símbolo da cidade; financeiramente, uma mina de ouro. Montanha-mutante, montanha-fachada, vista nunca definitiva. Levo a vida atravessando essas léguas íngremes. Daí foram retiradas minhas costelas e daí devo extrair as costelas do outro. As montanhas não me pertencem: sou eu quem pertenço a elas, que nunca acabarão, mesmo que as destruam.
Nunca vão deixar de existir sobre mim como um corpo pesado e, por vezes, macio. Estas terras nunca me serão leves. Mineiro: em que há minas. Terreno minado. A palavra extração me acompanha como um sobrenome. O que mais extrair desta cidade, além de contemplação e nostalgia?”
(Trecho de Sobre a neblina, 2006).

*

Christiane Tassis é escritora e roteirista. Estreou na literatura em 2004, quando recebeu a bolsa Flip de Criação Literária para escrever o romance Sobre a Neblina, publicado no Brasil pela editora Língua Geral (2006) e em Portugal pela Editora Quetzal (2009) Em 2010, publicou o romance O Melhor do Inferno pela Língua Geral e participou da antologia de autores mineiros Minas, Estado de Espírito, pela Editora Olhares, reunindo reúne fotografias de José Caldas e textos de cinco premiados escritores mineiros contemporâneos – além de Christiane, Carlos de Brito e Mello, Ana Maria Gonçalves, Murilo Carvalho e Luiz Ruffato.

Com os escritores Murilo Carvalho, Carlos de Brito e Mello e Luiz Ruffato e o fotógrafo José Caldas, autores do livro "Minas: Estado de espírito". Crédito: Arquivo pessoal Christiane Tassis / Divulgação
Com os escritores Murilo Carvalho, Carlos de Brito e Mello e Luiz Ruffato e o fotógrafo José Caldas, autores do livro “Minas: Estado de espírito”.
Crédito: Arquivo pessoal Christiane Tassis / Divulgação

Em 2013, o romance Sobre a Neblina foi adaptado para o cinema e foi o vencedor do Festival de Brasília, com o título Exilados do Vulcão. Christiane colaborou como roteirista do programa Sexo Frágil (TV Globo) e atualmente escreve a série de TV Bem-vindos.

O filme "Exilados do vulcão", de Paula Gaitán, é uma adaptação de "Sobre a neblina"
O filme “Exilados do vulcão”, de Paula Gaitán, é uma adaptação de “Sobre a neblina”

Sobre a neblina conta a história de Henrique, fotógrafo que pode morrer a qualquer momento em função de um tumor cerebral. Henrique contata Lúcia, sua ex-namorada, e encomenda-lhe uma biografia: “Sou agora o que você se lembrar, o que você me disser. Sua memória será minha única forma de existir, até que eu me transforme em um pequeno ponto final, que desconhece o parágrafo que havia antes”, ele escreve.

*

“As paredes de vidro blindado – ‘que não têm ouvidos, mas olhos’ – refletem, fundem e multiplicam os acontecimentos, de modo que paisagem nunca é a mesma: o pavão flutua no ar, um ganso navega no espaço e espectros de visitantes caminham sobre a linha do horizonte – a casa parece viva e em constante movimento. ‘Observando e sendo observada’, como ela dizia. Para mim, aquilo causava apenas medo. Como se fantasmas ou, no mínimo, assaltantes estivessem sempre à nossa espreita”.
(Trecho de O melhor do inferno, 2010)

Sobre o O melhor do inferno, Maria Esther Maciel escreveu: “A notável habilidade narrativa de Christiane Tassis se dá a ver sobretudo na costura íntima dos detalhes, na força visual do texto e no ritmo envolvente dos acontecimentos relatados. Afeita à experimentação e às formas híbridas da escrita, a autora mistura dicções, embaralha realidades “reais” e virtuais, cenários naturais e artificiais, compondo um mosaico de experiências ao mesmo tempo vividas e encenadas, como se os limites entre o que o olho vê e o que a câmera registra estivessem sempre por um triz. Contemporâneo de seu próprio presente, O melhor do inferno é um romance que incorpora inventivamente as linguagens do nosso tempo. Nele, o visível se funde ao imaginado e o making-of se confunde com o próprio filme”.

Belo Horizonte ilustrada

MIGUELANXO CAPANascido em La Coruña en 1958, Miguelanxo Prado é reconhecido internacionalmente e acumula diversos prêmios na bagagem. Seu trabalho aborda os diferentes campos do grafismo e da ilustração, desde a pintura e o desenho gráfico até colaborações com a televisão e o cinema.

Percorrendo diversos lugares e conhecendo a produção cultural de Belo Horizonte, Miguelanxo esteve na capital mineira, em outubro de 2001, para fazer uma versão em quadrinhos da cidade para o projeto Cidades Ilustradas. O livro, chamado “Belo Horizonte”, foi lançado em 2003.

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Antes mesmo de desenhar os locais que lhe chamaram a atenção, ele disse à imprensa: “Belo Horizonte não é tão conhecida quanto o Rio de Janeiro. Então, tenho que ir apresentando a cidade. Achei que um bom sistema seria utilizar a cidade como o cenário de uma história. Algo simples, porque o espaço é reduzido. Mas durante o decorrer da trama os leitores vão conhecendo a cidade. No final, vão descobrir que Belo Horizonte não é apenas o cenário, mas sim o personagem principal da história.”

A Editora Casa 21 apresenta Cidades Ilustradas como um projeto editorial “que pretende realizar uma série de livros cujo tema central são as principais cidades brasileiras vistas através do traço e arte de desenhistas nacionais e internacionais”. Entre as cidades retratadas estão São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Curitiba.

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A editora disponibilizou a versão em pdf do livro de Miguelanxo Prado. Confira aqui.

Suplemento Literário de Minas Gerais

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 Criação de Murilo Rubião, o “Suplemento Literário” do Minas Gerais foi lançado em setembro de 1966. Em 2016, portanto, a publicação completa 50 anos de existência, no mesmo ano em que se celebra o centenário de nascimento do escritor mineiro. O jornal nasceu vinculado à Imprensa Oficial, mas em 1994 foi transferido para a Secretaria de Estado de Cultura, e desde então passou a se chamar Suplemento Literário de Minas Gerais.

Em 2011, para comemorar os 45 anos do SLMG, uma edição do jornal reuniu 45 depoimentos de leitores que eram também colaboradores do jornal. Leia a seguir alguns desses textos, intercalados com imagens da exposição “45 anos do SLMG: uma história através das capas” – que reuniu algumas das “primeiras páginas” de edições especiais, ao longo dos anos. A montagem da exposição, no Palácio das Artes, foi feita pela Superintendência de Museus e Artes Visuais (Thiago Carlos Costa e Fernanda Camas).

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Recebo e leio o Suplemento, sem dúvida uma das mais relevantes publicações  sobre literatura. Talvez seja o único suplemento cultural a dar tanta ênfase  à poesia, essa arte da imensa minoria, como disse Juan Ramón Jiménez. A diversidade e a qualidade dos textos são atributos do Suplemento, como mostram as edições temáticas. Atualmente os livros de auto-ajuda são rotulados de ficção, e best-sellers banais são celebrados como se fossem  romances. Por isso, é necessário retomar critérios críticos quando o assunto  é literatura. Há outra coisa que admiro no Suplemento: seu inconfundível traço mineiro. Às vezes descubro a obra de um autor, garimpada pelo Suplemento. Gosto dessa mineração do outro e do olhar que Minas lança sobre
a literatura brasileira. (Milton Hatoum)

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 O suplemento literário de Minas vem fecundando a cena literária brasileira como nenhum outro o fez. Durante décadas, suas páginas, como um oceano, se abriram para os autores canônicos da nossa literatura, escritores em progresso e, também, novos talentos. Tive a sorte de publicar meus primeiros contos nesse suplemento único, onde hoje continuam a vingar novos brotos em meio às suas raízes históricas. (João Anzanello Carrascoza)

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 O Suplemento Literário de Minas Gerais é talvez o ultimo sopro que nos resta de inteligência e cultura, e pesquisa e busca de valores, e confirmação dos verdadeiros valores. Tão bom abri-lo e descobrir ou redescobri autores que fizeram parte de nossa vida ou que ainda fazem parte de nós, de nossa alma, e que andam esquecidos, omitidos, olvidados. O Suplemento é e a renovação constante, a busca, a colocação em pauta., a recuperação sempre presente de valores que nos fazem sentir melhor e continuar a lutar, a escrever, compor, pintar, fazer filmes e tudo o mais. (Ignácio de Loyola Brandão)

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Num terreno – o dos jornais de cultura – de imensa instabilidade, louvemos os 45 anos do Suplemento Literário de Minas Gerais. Acompanho-o, com alguns intervalos, desde o início da década de 1970, e conservo em meus arquivos numerosos (e esplêndidos) exemplares disseminados ao longo desse período. Destaco, em especial os “números especiais” dedicados a grandes escritores, e que se tornaram fonte indispensável de informação para professores e estudantes das Faculdades de Letras. Seria, aliás, muito desejável que o Suplemento viesse a nos brindar com um livro que recolhesse alguns dos antológicos ensaios pioneiramente estampados em suas páginas. (Antonio Carlos Secchin.)

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Como leitor brasileiro e interessado centralmente pela obra literária, tenho acompanhado o Suplemento Literário de Minas Gerais desde seu início. Nesta condição, só posso agradecer aos que o têm feito continuar, ao passo que os suplementos dos grandes jornais progressivamente nos abandonam. Para que meu agradecimento não pareça algo apenas pessoal: creio que a política contrária dos grandes jornais prejudica não só a literatura brasileira mas à sua cultura em geral, pois a literatura é o meio expressivo para o qual convergem a filosofia, a história e as ciências humanas. Ora, no momento em que se diz que o Brasil estaria dando um salto que o aproxima das grandes potências, é deplorável que as condições de produção cultural atrofiem. As autoridades devem crer que crescimento se limita a padrões econômicos. O Suplemento Literário de MG por sorte nossa não pensa assim. (Luiz Costa Lima)

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Como não nos é chegado o som estridente da corneta, mas o marulhar das palavras em frases leves e cadenciadas, de preferência sentidas e inteligentes, somos nós, os mineiros, inventores de revistas e de suplementos literários. Vale dizer: somos inventores para o consumo interno e exportadores para o Brasil de novas gerações letradas. As revistas têm tido vida passageira (Edifício, Tendência, Complemento…), mas o Suplemento Literário de Minas Gerais permanece colosso e impávido. Sucessivos diretores e equipes de jovens, inspirados por Murilo Rubião, têm administrado com competência e sensibilidade a radicalidade ou o conservadorismo das muitas e complexas fases da vida desse que hoje sopra 45 velinhas. Parabéns! (Silviano Santiago)

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O Suplemento Literário de Minas Gerais
sempre foi e espero que continue a ser um raro respiradouro
na crescente asfixia da literatura e da poesia nos
cadernos culturais da nossa imprensa cotidiana.
Faço votos para que continue a desempenhar
esse papel e que dê espaço especialmente àqueles
que ousam fugir à obviedade canonizada
e buscar novos caminhos para o imaginário poético,
hoje tão cerceado e marginalizado.
Que aposte nos least-sellers. (Augusto de Campos)

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Quem quiser estudar a literatura brasileira produzida nos últimos 50 anos tem que necessariamente consultar o SLMG. O suplemento acompanhou de perto as tendências deste período, revelando escritores e recuperando autores esquecidos, além de apresentar, em traduções, os estrangeiros. Mesmo com altos e baixos, o SLMG vem cumprindo mineiramente, ou seja, sem estardalhaços, o seu papel dentro da cultura brasileira. (Luiz Ruffato)

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Dizem que, para cães, cada ano é igual a sete – ao contrário de para gente, em que cada é igual a cada. De um periódico literário, qual seria a conta certa? Se idade é o que amarra as duas pontas da existência: quando, em 66, Murilo Rubião fundava o Suplemento literário, atava a sua ponta (um 1916 em que a Independência nem era centenária, a República, uma dama nos seus 27), com a daquela rapaziada (a dama já uma vilipendiada senhora de 77). Dos tempos heroicos, uns permanecem (Rui Mourão estava num dos últimos números), outros, nascidos depois, esticam a ponta de cá, todos traçando as linhas que se inscrevem e se… Mais: como a ideia de literário do Suplemento sempre incluiu ensaios, então é que as pontas do tempo mais se alongam dos dois lados. E (proeza de ex-mágico!): tempo e espaço multiplicam-se no branco da página, que acolhe o que aqui e alhures (bem) se vê, se diz, se imagina, se pensa, se desenha, se lê e escreve. É provável que, para os cães, um seja igual a sete porque são eles filósofos e aprendem mais a cada. No caso do Suplemento, talvez 45 se iguale a tantas vezes quantos, porque o poiético é muitos – e o homem, em resumo: um animal literário. (Jacyntho Lins Brandão)

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Suplemento Literário de Minas Gerais foi o primeiro jornal em que colaborei poeticamente. O poema enviado foi “Germinal”, que abre meu livro De corpo presente, que começava a ser escrito, no começo dos anos 70, e que só foi publicado em 1975. Cheguei a trocar uma ou duas cartas com o grande Murilo Rubião acerca da colaboração, pois foi através dele que cheguei ao tabloide que lia e leio até hoje com muito proveito. Entendo que é assim porque o SLMG sempre foi um jornal ecumênico que abrigava todas as tendências, o que o torna, 45 anos depois de sua criação, um Suplemento cuja a leitura é indispensável, pois forma e informa, generosamente, “pardais novos”, como dizia Manuel Bandeira, e os antigos, como eu. (Armando Freitas Filho)

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É sempre com expectativa que abro as páginas do Suplemento assim que ele chega pelo correio. Desde a capa caprichada, tudo causa prazer no leitor, que nele encontra matérias de críticos importantes, revê autores consagrados, amplia seus horizontes entrando em contato pela primeira vez com antigas e novas vozes literárias. Recebo e coleciono o Suplemento Literário de Minas Gerais há muitos anos, e de vez em quando dou uma relida em algum conto ou reflexão interessante de números passados. Creio que se trata do periódico cultural mais constante e vivo do Brasil. (Viviana Bosi)

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Nenhum escritor se esquece do espaço onde primeiro publicou. Lembro-me da alegria de ver um conto meu, algo que pertencia apenas a mim, escritor iniciante, ganhar asas no Suplemento Literário e voar rumo a olhos alheios. Senti orgulho também. O Suplemento era a casa do Murilo Rubião e tantos outros grandes autores. Havia, ainda, o gesto democrático. O Suplemento era – e continua a ser – aberto a todos. Revela gente nova, oferece a quem chega a alegria e o orgulho da primeira vez. Que venham novos 45 anos para o Suplemento Literário. (Luís Giffoni)

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Murilo Rubião reinava sobre tudo e todos. Juntou uma turma dos meus melhores amigos para fazer o Suplemento Literário, obra ousada para os tempos do regime militar. Todos os sábados ele circulava, junto ao órgão oficial do governo, com o sumo em poesia, contos e ensaios. Tudo ilustrado pelos nossos melhores artistas. Entusiasmo, criação e juventude brotavam daquelas paredes do prédio da avenida Augusto de Lima com Espírito Santo. Bebíamos muita cultura e também cerveja, após o expediente, no Saloon, onde as conversas nos conduziam aos melhores sonhos literários, musicais, amorosos e políticos. Tínhamos certeza de que estávamos transformando, inventando o mundo. (Fernando Brant)

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Desde sua origem — com Murilo Rubião — O Suplemento Literário de Minas Gerais divulga o que há de melhor e atual na literatura, em seus vários gêneros, enquanto nos acorda, sempre, para o que aqui houve. Se buscamos a história da Literatura Brasileira, nos últimos 50 anos — em Minas e além de Minas— o Suplemento Literário é fonte precisa para esse aprofundamento, Conhecer pela literatura é perceber tanto o real como o ideal. Seu rigor, em cada edição, nos surpreende e nos mostra novos rompimentos significativos e definitivos com o cotidiano da linguagem. (Bartolomeu Campos de Queirós)

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Comecei a ler o Suplemento Literário de Minas Gerais em fins dos anos 70 e voltei a ele muitas vezes para pesquisas na década seguinte e depois. O “acervo” do SLMG está entre os mais importantes da história de nossos periódicos, com um conjunto estupendo de editores, designers, escritores, pesquisadores e artistas plásticos dos mais variados campos, sendo praticamente obrigatória sua consulta para quem queira conhecer literatura, cultura e arte. Mas esta relação com o SLMG acabou se tornando também afetiva pelo fato de diversos amigos terem editado o jornal a partir dos anos 90, quando passei a acompanhar sistematicamente a publicação. E até hoje não perco um número. Seus 45 anos de existência, enfrentando toda ordem de dificuldades, são um marco dificilmente superável e isso é motivo mesmo para uma grande festa! (Ronald Polito)

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 Ali por volta dos 18 anos, eu e um monte de jovens, líamos Ernest Hemingway e queríamos escrever no estilo do célebre escritor norte-americano. Pois aquelas minhas histórias juvenis acabaram por me levar até o Suplemento Literário, indicadas para publicação pelos escritores Angelo Oswaldo e Rui Mourão. Então, eu viajava cem quilômetros para entregar os textos nas mãos do poeta Adão Ventura, sempre muito gentil comigo na redação. Mas os meus anos de prosa duraram pouco e me agarrei apenas à poesia. Anos mais tarde, já trabalhando como artista gráfico, fui convidado pelo poeta Carlos Ávila, novo editor do SL, para fazer a reforma gráfica do jornal e seguir paginando-o. Com a troca de governo, Carlos saiu e eu continuei no SL, com o poeta Anelito de Oliveira como editor. Acabado aquele governo, foi a minha vez de sair. Parafraseando as três ceguinhas de Campina Grande, o que tenho a dizer é que o Suplemento Literário de Minas Gerais foi um campo grande onde pude exercitar com plena liberdade aquilo para o que nasci. (Guilherme Mansur)

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 Sou leitor do Suplemento desde 1971, quando aos 17 anos me assumi como poeta e comecei a ler literatura de maneira sistemática, para me integrar ao meio e para aprender. Foi nessa época que me tornei frequentador assíduo de páginas literárias e publicações na área, para onde mandava meus poemas, da Brasília onde morava. Nem me lembro como fui incluído entre os destinatários do Suplemento de MG. Mas desde então, tem sido sempre uma alegria recebê-lo e lê-lo. Sempre gostei da diagramação tipo limpa dele. (Italo Moriconi)

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Em 1977, sem conhecer ninguém da casa, sem ter colaborado antes e sem ser chamado, mandei para a redação do SLMG um artigo sobre Osman Lins, que ainda era vivo. Um pernambucano analisado por um paulista? Será que o pessoal de MG aceita? Não só aceitou como a dose se repetiu muitas vezes, no meu caso e no de tantos escritores brasileiros, de toda parte. É gratificante colaborar há tanto tempo num suplemento que sabe respeitar a tradição como matéria viva, sempre atento à renovação e à modernidade, que valoriza a prata da casa mas está sempre aberto à literatura de todo o país. (Carlos Felipe Moisés)