“Descobrimento da paisagem” – Uma crônica de Regis Gonçalves

O menino Regis Gonçalves passeia com a família na década de 1940, em Belo Horizonte. Crédito: Arquivo pessoal / Regis Gonçalves
O menino Regis Gonçalves passeia com a família na década de 1940, em Belo Horizonte.
Crédito: Arquivo pessoal / Regis Gonçalves

“Belo Horizonte era cheiro de maçã e viagem de trem. Era o mundo idealizado além da paisagem à minha frente, a sugerir um horizonte que se proclamava belo, distante e inacessível. A lembrança mais remota que guardo dessa cidade de sonhos se materializa sob a feição de um alegre tumulto que saudava a chegada de meus pais vindos da capital. Era como se o casal emergisse de uma dimensão incomensuravelmente longínqua e inescrutável. Eu e meus irmãos nos deliciávamos na expectativa das malas se desfazendo ante a nossa mal disfarçada sofreguidão. Éramos tomados pela excitação provocada pelo desempacotar dos embrulhos, alguns dos quais nos seriam destinados – um brinquedo, um sapato novo, uma roupa de ocasião. E especialmente um, entre eles, indefectivelmente haveria de exalar através da seda delicada que o envolvia o delicioso aroma sob o qual se escondia o fruto vermelho, túrgido, de um sabor discrepante de nossas goiabas e mangas tão triviais. Era um sabor repleto das promessas de um mundo exuberante, capaz de guardar outros cheiros e sabores apenas imaginados.

Até que finalmente aconteceu a minha vez de ultrapassar os limites do rio e da serra que demarcavam o território da infância, para uma aventura que me levaria a experimentar as sensações de uma viagem até os confins da imaginação. A travessia haveria de ficar registrada em seus mínimos pormenores, desde o compasso maníaco das rodas do trem correndo matematicamente sobre os trilhos, até o apito estridente da locomotiva e às insinuações novidadeiras por trás de curvas, rios, túneis, morros, paisagens. No fim da viagem, o registro sonâmbulo da composição adentrando a vastidão do pátio de manobras para estacionar, resfolegante, numa estação mergulhada no lusco-fusco da noitinha.

Depois, abrem-se os dias seguintes para o mergulho em uma atmosfera de fatos inusitados que se sucediam com a velocidade de um encantamento. Uma foto registra o flagrante de nossa passagem pela avenida Afonso Pena, meu pai, a cabeça coberta pelo chapéu, metido em elegante jaquetão, a conduzir pelo braço minha mãe, igualmente bem trajada num vestido da moda recoberto por um bem-posto manteau. Firmemente ancorado na mão paterna – enquanto minha mãe cuidava das primas Conceição e Dalva – me situo meio passo atrás, esforçando-me para acompanhar as passadas do casal que caminha em sintonia com o ritmo acelerado de transeuntes da cidade grande. Prosseguíamos sob a proteção do sombreado renque de árvores, frondosas e inumeráveis, solenemente assentadas em perspectiva a se perder nos confins da serra. Em seus ruídos tumultuosos – gente, carros, buzinas, pregões – a cidade exercia sobre meus sentidos extraordinário poder de sedução. Na calçada se destacavam os caprichosos desenhos em pedra portuguesa. As ruas eram recobertas de asfalto cinzento, nele cravados os trilhos de aço por onde trafegava o bonde em que deveríamos embarcar.

Mas nem tudo é apenas memória. Em breve, a cidade ainda juvenil se converteria no habitat de meus sonhos e angústias, foco de meus desejos e frustrações. Mas, antes de tudo, espaço existencial por onde passaram a transitar os episódios grandiosos e os mais elementares de minha aventura humana. Aqui me fiz homem, plantei esperanças, colhi desatinos, semeei meus mortos, multipliquei-me em filhos e alicercei as mais ambiciosas aspirações – que o tempo se encarregou de reduzir a essa severa lucidez de estar no mundo. Até quando? A pergunta ecoa em torno à paisagem montanhosa cingindo o horizonte. Um belo horizonte. E o olhar se entrega ao apelo de outras paisagens que se adivinham, morro trás morro, em sucessão infinita. Querer viver sem âncoras uma vida que é apenas rito de passagem.”

(Versão modificada especialmente para o projeto Cartógrafos da Vertigem Urbana, publicada originalmente no caderno Magazine, do jornal O Tempo, em 10 de março de 1999)

Coleção Poesia Orbital

Primeira reunião do projeto “Poesia Orbinal” – todos os poetas, originalmente convidados. Saguão da Fumec. Foto: Lincoln Continentino. 1996.
Primeira reunião do projeto “Poesia Orbinal” – todos os poetas, originalmente convidados. Saguão da Fumec. Foto: Lincoln Continentino. 1996.

A Coleção Poesia Orbital foi um dos eventos marcantes da cena cultural de Belo Horizonte em 1997, ano do centenário da capital mineira. São 62 livros de 67 poetas, organizados por alguns grupos editoriais da cidade (Cemflores, Dazibao, Fahrenheit e Razão de Dois) que já vinham trabalhando com publicações coletivas de textos literários em diferentes formatos gráficos, como afirmou ao blog A Parada um dos coordenadores da coleção, Camilo Lara, comparando-a a outra iniciativa, o projeto Dezfaces, realizado anos depois. “Na verdade, várias órbitas poéticas transitaram ou circularam pela coleção, traduzindo a um só tempo a autonomia de cada autor, de cada grupo editorial, de cada tendência, e, também, a possibilidade do encontro dessas diferenças. O projeto Dezfaces contou com a presença de muitos poetas-editores que colaboraram com o Poesia Orbital. Além disso, retoma também a questão da autonomia editorial. Se na coleção Poesia Orbital, cada poeta respondia pelo seu livro, pelos seus versos, o Dezfaces espelha também um pouco isso. Cada núcleo editorial do Dezfaces teve autonomia para produzir o seu jornal, a sua edição. No entanto, no conjunto das 10 edições, há um nexo: a realização de um passeio por várias vozes da poética belo-horizontina atual.”

Marcelo Dolabela – Praça Rui Barbosa / Praça da Estação. Foto: Luciana Tonelli – 1988
Marcelo Dolabela – Praça Rui Barbosa / Praça da Estação. Foto: Luciana Tonelli – 1988

O dadamídia Marcelo Dolabela

Divergência Socialista. Da esquerda para a direita: Silma “Bijoux O’Hara” Dornas, Marcelo Dolabela, Ana Gusmão, Délio Esteves & Fernando Righi – Rua Ouro Preto / em frente do Rony Stones Studio – foto: Maíra Buarque – 2002.
Divergência Socialista. Da esquerda para a direita: Silma “Bijoux O’Hara” Dornas, Marcelo Dolabela, Ana Gusmão, Délio Esteves & Fernando Righi – Rua Ouro Preto / em frente do Rony Stones Studio – foto: Maíra Buarque – 2002.

O ABISMO E O ABISMO

tire o seu abismo do
abismo que eu quero passar com o meu
abismo hoje pra você eu sou
abismo
abismo não machuca
abismo eu só errei quando juntei meu
abismo ao seu
abismo não pode viver perto de
abismo
é no
abismo que eu vejo o meu
abismo o meu
abismo e os meus
abismo s rasos d’
abismo eu no seu
abismo já fui um
abismo hoje sou
abismo em seu
abismo

Marcelo Dolabela – na exposição A história do rock brasileiro em 1000 discos, de Marcelo Dolabela – Centro Cultural UFMG / Avenida Santos Dumont – foto: Ivan Chagas - 2012.
Marcelo Dolabela – na exposição A história do rock brasileiro em 1000 discos, de Marcelo Dolabela – Centro Cultural UFMG / Avenida Santos Dumont – foto: Ivan Chagas – 2012.

AUTOEXPLICATIVO

Eu, por exemplo, o radical do traço, Marcelo Dolabela, poeta e dadamídia, o pop mais dadá de Beagá, na linha direta de Rimbaud,
Saravá!
a benção Lígia Clark,
a nossa Modrian da Alegria,
terra de Hendrix de João Gilberto,
a benção Oswald de Andrade,
tu que gritaste com humor todas minhas mágoas de amor,
a benção, Bashô,
a benção Tzara,
a benção Ezra Mallarmé,
sua benção, Hélio Oiticica (Meu irmão!…)
a benção Wladimir Maiakóvski,
a benção, Safo Ono,
a benção meus maus Glauber Sganzela,
vocês, sobrinhos de Vortov,
a benção, Tarsila Crepax,
sua benção Lewis Warhol,
a benção, todos os grandes tropicalistas do planeta,
pop, dadá e antropófago,
lindos como os olhos moles de Pagu,
a benção maestro Luciano Klhiébnikov,
parceiro e amigo querido,
que já viajaste tantas revoluções comigo
e ainda há tantas a viajar,
a benção, Beüys Lichtenstein, parceiro cem por cento,
você que une a ação ao sentimento e ao pensamento,
a benção, Baden & Vinícius,
amigos novos, parceiros novos,
que fizeram este samba comigo, a benção, amigo,
a benção Maestro Walter Benjamim, que não és um só,
és tantos, tantos como meu fuzil de todos os sins,
inclusive o de Guimarães Joyce,
saravá!
a benção, que eu vou partir,
eu vou ter que dizer a Zeus…

– 1ª Comunhão de Marcos Dolabela – em pé: Marcos Dolabela (irmão), Regina Lúcia Dolabela (irmã) & Marcelo Dolabela; sentadas: Maria das Fores Dolabela (mãe) e, no colo, Maria Hilda Dolabela (irmã) – Lajinha (MG) – foto: Ely – 1963.
– 1ª Comunhão de Marcos Dolabela – em pé: Marcos Dolabela (irmão), Regina Lúcia Dolabela (irmã) & Marcelo Dolabela; sentadas: Maria das Fores Dolabela (mãe) e, no colo, Maria Hilda Dolabela (irmã) – Lajinha (MG) – foto: Ely – 1963.
Conjunto Zero – da esquerda para a direita: Iberê Cordeiro (bateria); Zé Carlos “Corujinha” (contrabaixo); Turico Starling (cantor); Sérgio Guimarães (guitarra); Fernando (guitarra) & Marcelo Dolabela (cantor) – Baile de Debutantes / auditório do Colégio Estadual Doutor Adalmário / Lajinha (MG) – foto: Ely – 1972. Observação: Zé Carlos “Corujinha” e Turico Starling não faziam parte do conjunto. O outro integrante do grupo era Mizael Penna, que não está presente na foto.
Conjunto Zero – da esquerda para a direita: Iberê Cordeiro (bateria); Zé Carlos “Corujinha” (contrabaixo); Turico Starling (cantor); Sérgio Guimarães (guitarra); Fernando (guitarra) & Marcelo Dolabela (cantor) – Baile de Debutantes / auditório do Colégio Estadual Doutor Adalmário / Lajinha (MG) – foto: Ely – 1972. Observação: Zé Carlos “Corujinha” e Turico Starling não faziam parte do conjunto. O outro integrante do grupo era Mizael Penna, que não está presente na foto.

A verdade está na Rua Erê

Rua Erê, no bairro Prado, em Belo Horizonte. Crédito: Dandan Gallagher
Rua Erê, no bairro Prado, em Belo Horizonte.
Crédito: Dandan Gallagher

“Como esta Rua Erê me enternece! Cá estou, de novo, e melhor fora não ter saído. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. É aqui nesta sala de jantar, onde o relógio de repetição bate horas caraibanas, que encontro um refúgio embora precário”.

(Cyro dos Anjos. O amanuense Belmiro. 1937).

Uma tarde com José Bento Teixeira de Salles

José Bento Teixeira de Sallles, em sua casa, em 2006. Crédito: Henrique Lisboa Carneiro e Dandan Gallagher
José Bento Teixeira de Sallles, em sua casa, em 2006.
Crédito: Henrique Lisboa Carneiro e Dandan Gallagher

Em agosto de 2006, pedi a Henrique Lisboa Carneiro e Dandan Gallagher que acompanhassem algumas recordações de José Bento Teixeira de Salles sobre escritores de Belo Horizonte. O velho Zé Bento conhecia praticamente todos os autores da cidade. De uns ele gostava muito, como Fernando Sabino. De outros, pouco, como Guimarães Rosa.

Zé Bento era irmão de Fritz Teixeira de Salles, que curiosamente tem o nome de batismo de Frederico. Consta que ganhou o apelido quando um amigo médico fez uma especialização na Alemanha (na época algo impensável). Para demonstrar que sabia alemão, chamava Fred de Fritz, já que em terras germânicas, Fritz significa… Fred.

José Bento escreveu também dois importantes livros que retratam bem a história da capital mineira, a saber: Rua da Bahia e O Avarandado da Memória. O primeiro é um relato fiel da história da cidade com enfoque justamente nos locais de congregação dos literatos mineiros e de outros estados, sob a visão do próprio autor. O segundo é uma coletânea de crônicas sobre a capital mineira.

Abgar Renault guardava uma relativa ligação com o Café Estrela e era secretário de Educação do governo Milton Campos. Era amigo de Rodrigo Melo Franco e Aníbal Machado e, de acordo com Bento, não era muito de comunicação. Sujeito arredio, Renault custou a ser convencido de publicar coisas de sua autoria, justamente por ser muito introvertido. Não era de frequentar a noite da cidade.

Aliás, a irmã de Aníbal, Lúcia Machado de Almeida, precursora da literatura infanto-juvenil no Brasil, tinha uma casa na Rua Tomé de Souza que era ponto de encontro da intelectualidade mineira – mas naquele intuito de “ver e ser visto”, uma espécie de coluna social intelectual.

Alphonsus Guimaraens Filho fazia parte de um grupo que tinha, dentre os cativos, Bueno de Rivera, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Emílio Moura, Fábio Lucas, Fernando Sabino, Francisco Iglesias e Fritz.

Ildeu Brandão era o “tipicamente mineiro”. Muito modesto e humilde, “era um tipo ausente, flutuante”. Era casado, bom chefe de família. O pai foi da Academia Mineira de Letras – João Lúcio Brandão. Bento conta que João Lúcio, que escrevia livros didáticos para o ginásio, livros esses estudados por Zé Bento na sua infância, eram intitulados com os próprios nomes dos filhos, um deles Ildeu, naturalmente. Era um bom jornalista e trabalhou anos na Folha de Minas. Aposentou-se como redator no Palácio da Liberdade.

Bueno de Rivera era uma figura ímpar, lembra Bento. Locutor da PRC7, a Rádio Mineira, “o sujeito era um caso pitoresco de dupla personalidade”. Por um lado, excelente poeta, por outro, “se vestia de outro personagem e fazia o Guia Rivera”. Bento lembra a época em que trabalhava na Belgo Mineira, quando Rivera, que de noite tomava todas e era uma figura descontraída, se transformava para cavar anúncios para o seu guia. “Era uma pessoa inteiramente diferente”, relata. Exímio poeta, mas munheca de samambaia. “Criavam uma rua, Rivera soltava um guia. Construíam uma praça, Rivera soltava outro guia”, recorda Bento. O acadêmico lembrou também que o nome dado ao poeta pelos seus pais veio, provavelmente, do pintor espanhol Diego Rivera.

Emílio Moura foi outro “típico mineiro”. Tímido, era muito amigo de Milton Campos e Abgar Renault. Emílio era funcionário da Secretaria de Estado de Educação, chefe do Departamento Secundário. Nunca saiu de Minas. Curiosamente, atravessou várias gerações de literatos, das décadas de 20, 40 e 60, sempre muito presente em todas elas. Em seus poemas adotava a atitude de colocar interrogações como pontuação, fato raro entre poemas da geração.

Fernando Sabino, por quem José Bento tinha muito apreço, ficou em Belo Horizonte até o segundo ano da faculdade de Direito. Aliás, foi colega de sala do acadêmico. Estudou também no Colégio Mineiro. Certa vez Fernando pediu cola para ele em uma prova. Para se mostrar entendido do assunto, respondeu algumas coisas absurdas para o escritor, só para não ficar sem falar nada. O autor de “O Encontro Marcado” rapidamente se apossou das novas informações e logo pediu mais folhas para o professor. José Bento perguntou então: “Fernando, mas que diabos você escreveu aí que conseguiu preencher toda folha de almaço?”. O escritor passou então a prova para o amigo, que viu que, tamanha era a criatividade do colega, que encadeou um texto inteiro de ficção sem titubear, apenas com a invenção passada pelo amigo. Foi um grande nadador do Minas Tennis Clube e, por isso mesmo, quando lançou seu primeiro livro foi subestimado porque ele “era o nadador do Minas” e não um escritor.

Mário Garcia de Paiva era sobrinho de Abgar Renault. Também era mais um “típico mineiro”, mas, diferentemente de Emílio Moura, Paiva, além de discreto, retraído, fechado, introspectivo e tímido, era “triste”, na percepção de Bento. Foi secretário de redação do Suplemento Literário e frequentava, junto com Fritz e outros, a Gruta Metrópole.

Ivan Ângelo e Jaime Prado frequentavam o Maletta, mais especificamente o Lua Nova, outro botequim que ficava mais no interior do prédio, depois de passada a Cantina do Lucas. O Lua Nova abrigava mais escritores, intelectuais e artistas de esquerda.

Wander Piroli, jornalista do “Binômio” e do “Estado de Minas”, foi um dos precursores do “miniconto”. De acordo com Bento, Piroli dominou como poucos a qualidade da síntese e, por isso, passou a escrever contos pequenos, diretos, sem verborragia. Segundo Bento, Piroli freqüentava locais como Mocó da Iaiá (predileção também do ex-presidente Kubitschek) e o chamado Polo Norte, que ficava na Afonso Pena a dois quarteirões da rodoviária.

As revelações em preto e branco de Branca Maria de Paula

Quando era fotojornalista na Imprensa Oficial, nos anos de 1980, cobrindo a área de cultura para o diário oficial Minas Gerais, Branca Maria de Paula focou a lente em escritores que moravam em Belo Horizonte ou que estavam de passagem pela cidade. Também escritora, ela desenvolve o projeto Revelações em Preto e Branco, com imagens desses escritores. Aqui, três delas.

Darcy Ribeiro por Branco Maria de Paula
Darcy Ribeiro por Branco Maria de Paula
Adélia Prado por Branca Maria de Paula
Adélia Prado por Branca Maria de Paula
Oswaldo França Júnior por Branca Maria de Paula
Oswaldo França Júnior por Branca Maria de Paula
Branca Maria de Paula por Ana Valadares / Julho de 2015
Branca Maria de Paula por Ana Valadares / Julho de 2015

A elegância discreta de Maria Esther Maciel

ME-varanda de casa

KOAN

entre as coisas que voam

e as coisas que ficam

voo e fico

[Triz, 1998)

*

Sua avó paterna era Maria; sua avó paterna era Esther; nasceu assim Maria Esther Maciel.

Há algum tempo resolveu assinar Ester, em vez de Esther. Não era numerologia, apenas uma tentativa de voltar à origem – Maria Ester, como foi registrada, por engano. Mas logo ela sacou que a origem não precisa estar necessariamente no começo, podia estar em qualquer ponto da travessia. e restaurou ao nome o “h”.

Seu pathos é Patos de Minas (onde nasceu, em 1963, conterrânea de Autran Dourado e Altino Caixeta, o Leão de Formosa), mas não só; é a vida ao redor.

Seu locus é o trânsito entre pesquisa, academia e produção poética e ficcional, tomando sempre o cuidado de que cada uma dessas atividades se contamine da outra, sem abrir mão do rigor e da vertigem.

Um bom modo de perceber isso é ler seu ótimo livro de crônicas, A vida ao redor (Scriptum, 2014). Nele estão incluídos os temas de seu interesse, escritos num diapasão mais leve – mas sempre elegante: a poesia, a literatura, o cinema, a relação entre os homens e os animais, as listas e coleções.

Em O livro de Zenóbia (Lamparina, 2004), apresenta as listas dessa personagem, erigidas nas dobras do mundo visível: entre as ervas daninhas, o sorgo; entre os peixes perplexos, o pampo; entre as cidades raras, Dois Vizinhos; entre os temperos e ervas de cheiro, a calêndula; entre as aves em perigo, a saíra-apunhalada; entre as orquídeas e bromélias, a Constantia cipoenses; entre as palavras preferidas, Palavra. As “obsessões” de Zenóbia bem que poderiam ser acrescentadas a um de seus livros de ensaio, As ironias da ordem – Coleções, inventários e enciclopédias ficcionais (Ed. UFMG, 2010), justamente dedicada à ordenação do mundo, em artistas como Arthur Bispo do Rosário, Dante, Joyce, Peter Greenaway, Eduardo Coutinho e Carlos Drummond de Andrade.

Da mesma forma, O livro dos nomes (Cia das Letras, 2008) pode ser compreendido, como ponto de partida, com a lista de nomes/personagens que se apresentam ao leitor em ordem alfabética, histórias de vida que se entrelaçam e se desencontram.

Maria Esther Maciel em Belo Horizonte, 1991. Crédito: Arquivo pessoal
Maria Esther Maciel em Belo Horizonte, 1991.
Crédito: Arquivo pessoal

Seu fôlego ensaístico derivou para muitos outros objetos de estudo, contemplados em obras como O animal escrito: um olhar sobre a zooliteratura contemporânea (Lumme Editor, 2008),  A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (Lamparina, 2004) e Voo transverso (Sette Letras/UFMG), 1999), sem esquecer de sua tese de doutorado, também publicada em livro em 1995 – um estudo comparativo entre Octavio Paz e Escher.

Seus leitores esperam, talvez, uma nova coleção de poemas – seus dois livros desse gênero foram publicados há muitos anos: Dos Haveres do Corpo é de 1984 (Ed. Terra), e Triz é de 1998 (Ed. Orobó).

Em 1985, no lançamento de
Em 1985, no lançamento de “Dos Haveres do Corpo”, aos 21 anos
Crédito: Arquivo pessoal / Maria Esther Maciel

Dizem que o mundo jaz no maligno. Então é preciso incluir beleza nele, inserir nele novos objetos; algo como os textos de Maria Esther Maciel; algo como Maria Esther Maciel, para equilibrar as coisas..

*

(…)

A notícia, porém, chegou-lhe muito tarde. Por que quiseram preservá-la, se sabiam de sua força de mulher que não recuava diante de nada? Com os olhos baços e a alma submersa, passou a viver à margem das coisas, arredia ao próprio cotidiano. Só tinha vistas para o que houvera e para o que teria acontecido se ao filho tivesse sido dada a chance do milagre. Foi então que, numa inexata hora do dia 26 de novembro de 1984, Isaura cobriu o rosto com um lenço pardo e dormiu de forma que ninguém pudesse mais acordá-la.

[O livro dos nomes. Cia das Letras, 2008]

*

AULA DE DESENHO

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

[Triz, 1998]

*

foto MEMaciel0001

“Aliás, tenho repetido que a história de um poeta é também a história de suas perplexidades. E perplexidade, aqui, entendida como espanto, incerteza, assombro, maravilhamento diante do que não sabemos explicar. Borges externou essa consciência da perplexidade em uma breve conferência que fez sobre “o enigma da poesia”, ao dizer que diante de cada página em branco que encontrava tinha de redescobrir a literatura para si mesmo. Creio que cabe a todo poeta dar forma à sua perplexidade e transformá-la em poesia.” (Em entrevista a Luiz Alberto Machado, do site Sobresites).

Dois livros: “A Cidade Escrita” e “Sedução do Horizonte”

O centenário de Belo Horizonte, em 1997, suscitou, um ano antes, o lançamento de duas obras com textos sobre a cidade, ambas indispensáveis: Sedução do Horizonte (Fundação João Pinheiro), organizado por Laís Corrêa de Araújo, e A cidade escrita, por Wander Melo Miranda (ALMG/Ed. UFMG). Muitos deles são textos canônicos sobre a capital mineira, de autores como Mário de Andrade, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos.

Na introdução de Sedução do Horizonte, Laís chama a atenção, quando se trata de definir o que permite estabelecer a relação entre o ser e o mundo, entre o homem e a cidade, para a necessidade da arte, ou, citando uma expressão do escritor Michel Butor, “da ação do espírito humano no processo de fundação do ‘espírito do lugar’”.

Desse modo, as duas obras contribuem para entender esse “espírito do lugar” ao reunir um elenco de textos que apresentam Belo Horizonte como cenário e personagem, destacando aspectos da cidade na visão de escritores e poetas de diferentes gerações e tendências.

Estes são os textos que compõem A cidade escrita:

Aproximação da capital / Oswald de Andrade
Belo Horizonte: A nova capital de Minas / Olavo Bilac
Luar / João Alphonsus
Crônica / Olavo Bilac
Noturno de Belo Horizonte / Mario de Andrade
Memórias de uma república de estudantes / Salomão de Vasconcellos
Belo Horizonte / Carlos Drummond de Andrade
Sobre Belo Horizonte / Martins de Almeida
Belo Horizonte / José Bezerra Gomes
No miradouro dos Céus / João do Rio
Endereço das cinco Marias / Murilo Mendes
A capital / Avelino Fóscolo
Belo Horizonte / Alberto Villas
A menina do sobrado / Cyro dos Anjos
Jardim da Praça da Liberdade / Carlos Drummond de Andrade
Totonio Pacheco (I) / João Alphonsus
Semi-internato / Abgar Renault
Chão de ferro / Pedro Nava
The waste land / Affonso Ávila
Adeus Lagoinha / Gervásio Horta e Milton Rodrigues Horta
Totonio Pacheco (II) / João Alphonsus
Poema para Pedro Nava / Affonso Arinos
Beira-Mar / Pedro Nava
A visita do rei / Carlos Drummond de Andrade
As doces tardes da avenida Afonso Pena / Celi Vilhena
O amanuense Belmiro / Cyro dos Anjos
Noturno de Belo Horizonte / Dantas Motta
O encontro marcado / Fernando Sabino
Rua da Bahia / Rômulo Paes e Gervásio Horta
Canção sem metro / Carlos Drummond de Andrade
A vida é esta / Rômulo Paes
Rua da Bahia / Paulo Mendes Campos
Hino ao bonde / Carlos Drummond de Andrade
O anarquista Jerônimo / Hélio Pellegrino
Tarde Gris de Belo Horizonte em 1942 / Suzana Nunes de Morais
Segunda mão / Otto Lara Resende
Canção da moça fantasma de Belo Horizonte / Carlos Drummond de Andrade
Os anos 40 / Rachel Jardim
Foi pra Santa Tereza / Celso Garcia
Um artista aprendiz / Autran Dourado
Serra do curral / João Paulo Gonçalves da Costa
Os mineiros / Rubem Braga
Chovia / Ilka Boaventura
Belo Horizonte / Paulo Mendes Campos
O beira-mar de Pedro Nava / Adão Ventura
Os tempos olímpicos / Paulo Mendes Campos
Noturno de Belo Horizonte / José Américo de Miranda Barros
Começam a dispensar-se os artistas da nova geração / Ivan Ângelo
Em furos, o Arrudas (o rio de uma idade capital) / Libério Neves
Paguloso, o pontífice / Manoel Lobato
O mar de Minas / Ronald Claver
Hilda furacão / Roberto Drummond
Chez Bastião & Praça da Liberdade / Valdimir Diniz
O grande metecapto / Fernando Sabino
Clube da esquina / Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges
Os novos / Luiz Vilela
Monovolume: liberdade em equilíbrio / Ricardo Aleixo
A morte do pintor surrealista / Sérgio Sant’Anna
A cidade está perfurada / Antônio Barreto
Concerto para Berimbau e gaita / Jaime Prado Gouvêa
Triste horizonte / Carlos Drummond de Andrade
Monólogo do Escorpião / Rui Mourão
Pampulha vista do ônibus / Ricardo Aleixo
Reencontro de uma geração / Lúcia Helena M. Machado (Duda)
Tragédia suburbana / Rita Espechit
O homem de macacão / Oswaldo França Júnior
Ruas da cidade / Lô Borges e Márcio Borges
Diz Xis / Sérgio Fantini
Balada de Hans-Lucas / Marcelo Dolabela
Um roteiro da primavera verão em BH / Lúcia Helena M. Machedo (Duda)
Uma cidade se levanta / Henriqueta Lisboa

Sedução do Horizonte é dividida em quatro partes: O olhar do outro, O olhar histórico, O olhar interior e O olhar poético:

O Olhar do Outro
Belo Horizonte! / Machado de Assis
Primeira Exposição de Pintura / Arthur Azevedo
A Coragem de Minas / Olavo Bilac
Impressões de Belo Horizonte / Affonso de Escragnole Taunay
Belo Horizonte, a Bela / Monteiro Lobato
Belo Horizonte, cidade morta? / Tristão de Athayde
As Magnólias / Marques Rebello
A Alimentação e o Bócio / Alfredo Camarate
A Igreja de Curral del-Rei e o Espírito de Minas / Émile Rouède
Outro Estilo de Beleza / Roger Bastide
A Nova Capital / Arthur Thiré
Aspectos de Belo Horizonte / W. Leigh
Apelo à Industrialização / Joseph Antoine Bouvard
Vista Rápida de Belo Horizonte / Jules Supervielle

O olhar histórico
Os salões da Nova Capital / Andréa Mendonça Lage da Cruz e Joana Domingues Vargas
Primeiros passos na Capital dos Burocratas Descontentes / Daniel de Carvalho
A alma mineira de Belo Horizonte / Oliveira Vianna
Na cidade das ruas retas / Olavo Kely
I Congresso Feminino Mineiro e Elvira Komel / Lélia Vidal Gomes da Gama
Segregação e Tutela da Classe Operária em Belo Horizonte / Eliana Regina de Freitas Dutra
Cidade burocrática / Fernando Correias Dias
Uma carta de Guignard a Múcio Leão / Alberto da Veiga Guignard
Capelinha de São Francisco da Pampulha / Lúcia Machado de Almeida
Arquitetura Eclética marca Belo Horizonte / Sylvio de Vasconcellos
Crescimento e problemas urbanos / Fernando Reis e outros
A cidade ideal e a cidade real / Heliana Angotti Salgueiro

O Olhar interior
Surgindo da antiga aldeia / Avelino Fóscolo
Estudantes na nova capital / Ciro Arno
Nos primeiros tempos / João Alphonsus
Jovens Literatos Oficiais / Eduardo Frieiro
Bar do Ponto / Pedro Nava
No bairro dos Funcionários / Maria Helena Cardoso
Remata-se o painel / Cyro dos Anjos
Minha glória de campeão / Fernando Sabino
Quando jovem / Autran Dourado
No viaduto da Floresta / Rui Mourão
A força do clã / Roberto Drummond
Um jogo capital / Oswaldo França Júnior

O Olhar Poético
Noturno de Belo Horizonte / Mario de Andrade
Noturno de Belo Horizonte / Achilles Vivacqua
Não me esqueço / Carlos Drummond de Andrade
Semi-internato / Abgar Renault
Mestre Aurélio entre as rosas / Pedro Nava
Belo Horizonte Bem Querer / Henriqueta Lisboa
Nossa Senhora da Boa Viagem / Afonso Arinos de Melo Franco
Noturno de Belo Horizonte / Dantas Motta
Fragmentos em prosa / Paulo Mendes Campos
Pampulha / Affonso Ávila
Via Lírica de Belo Horizonte / Laís Corrêa de Araújo
O Arrudas (um rio de unidade capital) / Libério Neves

A cor da pele de Adão Ventura, a cor da pele de todos nós

Adão Ventura no lançamento de seu primeiro livro, no dia 3 de abril de 1970, na Livraria Moderna, ao lado de Jaime Prado Gouvêa. Crédito: Arquivo pessoal / JPG
Adão Ventura no lançamento de seu primeiro livro, no dia 3 de abril de 1970, na Livraria Moderna, ao lado de Jaime Prado Gouvêa. Crédito: Arquivo pessoal / JPG

[Um poema de Adão Ventura]

FAÇA SOL OU FAÇA TEMPESTADE

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

Todo poeta sabe como é difícil criar um título que sintetize todo o conteúdo de um livro de poemas. Alguns poetas foram muito felizes ao driblar essa dificuldade, nomeando seus livros com títulos de alta carga poética. Para citar alguns deles: Rubro apocalíptico, de Márcio Sampaio. Vocabulário da noite, de Jacques do Prado Brandão. Mecânica do azul, de Wilson Figueiredo.

Mas, talvez, o título dos títulos, o mais poético e original de todos os tempos seja Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul, lançado em 1970 por Adão Ventura, um título revolucionariamente mágico e estranho diante de uma ditadura militar subindo nas grimpas. O livro é dedicado a Affonso Ávila e Murilo Rubião e a capa foi criada por Sebastião Nunes.

Depois de sua estreia, viriam As musculaturas do Arco do Triunfo (1976), A Cor da Pele (1980), Jequitinhonha – Poemas do Vale (1980), Texturaafro (1992), Litanias de Cão (2002) e Costura de nuvens, antologia publicada pela Editora Dubolsinho, em 2006.

“Costura de nuvens”, de 2006

Neto de escravos, ele nasceu em Santo Antônio do Itambé, no Vale do Jequitinhonha, mudou-se para o Serro e daí para Belo Horizonte, onde se formou na faculdade de Direito da UFMG, em 1971, convivendo e tornando-se amigo, por afinidade eletiva, de outros estudantes: Fernando Brant, que já compunha com Milton Nascimento; e Jaime Prado Gouvêa, Sebastião Nunes e Sérgio Sant’anna, que estenderam a amizade para os lados da Imprensa Oficial, na Avenida Augusto de Lima, onde funcionava a redação do “Suplemento Literário” do Minas Gerais (Adão trabalhou como revisor ali).

Em 1973, seguiu para os Estados Unidos, onde lecionou literatura brasileira na Universidade do Novo México. De volta a Belo Horizonte, lançou seu livro mais conhecido, o clássico A cor da pele. Sobre essa obra, disse Silviano Santiago: “A originalidade da poesia de Adão Ventura advém do sentimento da cor da pele. A cor da pele: algo de pessoal e intransferível, e ao mesmo tempo algo de coletivo e histórico. O homem se descobre negro na tessitura da pele, e nesta vê as marcas da escravidão e do degredo, e sente os sofrimentos e a Mãe-África. Adão Ventura filia-se ao que se poderia chamar – insistindo ao máximo no paradoxo – tradição ocidental da poesia negra, tradição esta elevada à condição soberana por Cruz e Souza em pleno movimento simbolista”.

O poeta morreu em Belo Horizonte, em 2004, aos 65 anos.

Dizem que Adão Ventura é um dos maiores poetas brasileiros negros do século XX.

Pode até ser verdade. Mas o mais correto é dizer que Adão Ventura é um dos maiores poetas brasileiros do século XX.

Adão em uma rua de Belo Horizonte. Crédito: Divulgação / Estado de Minas
Adão em uma rua de Belo Horizonte. Crédito: Divulgação / Estado de Minas

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Leia aqui a crônica “Adão Ventura descobre a cor da pele”, de Sebastião Nunes, publicada em 2006.

Leia aqui outra crônica, esta de 2014, também de Sebastião Nunes: “A dificuldade de ser negro no Brasil”.

As duas crônicas são excepcionais, e explicam o poeta e sua poesia.

Aqui, panorama da fortuna crítica de Adão Ventura, texto de Gustavo Tanus.

Aqui, uma boa amostra da poesia do autor de A cor da pele, na revista eletrônica Modo de Usar.

Veja, ainda, a participação do poeta no programa Vereda Literária, em 1996, apresentado por Helton Gonçalves de Souza, com direção de Melquíades Lima.

E, finalmente, uma leitura do poema Faça sol ou faça tempestade, uma produção de Adriano Menezes para a TV Ufop.