Libério Neves, o gentleman do verso

Libério Neves Crédito: Arquivo pessoal / Libério Neves
Libério Neves
Crédito: Arquivo pessoal / Libério Neves

[Um poema de Libério Neves]

DO SER O SER E SER SEU PARECER

No quando em conversando assim contigo
e tido em ser um ser assim sincero
sou uma sombra boa, um vulto amigo

e sou, quando te falo, e quando sério
um grave ser sutil que nesta vida
transcende ao anjo, ardendo-se matéria

minha palavra então espessa vibra
ou tímida se evola, ou gruda como visgo
nos corações melífl uos das pessoas.

Contudo quando durmo (quando em sonho)
ou quando em meus re-versos me componho
um outro eu, em mim, pulsa e ressoa

uma linguagem funda e diferente!
pois uma coisa é ter-se o meu retrato
que mostra o magro rosto externamente,

enquanto que mostrado, em raios-X,
o dentro é contraponto e ponte exata
entre o ser-se o que é e o que se diz:

bem mais que olhos mansos nas capelas
ser o suspiro posto à luz das velas
queimando entre ser alma e ser matriz.

Uma parte do silêncio em torno do excelente poeta Libério Neves, 27 livros publicados, debita-se ao seu temperamento discreto e reservado. É quase como se ele tivesse feito um trato com a vida: de um lado, fingem não vê-lo; contudo, no seu canto, sabe-se Poeta, entre grandes, mas não espalha a notícia para ninguém. Não há ressentimento, muito embora concorde com Drummond, que o poeta é um ressentido, pois esse ressentimento de que fala traz o poeta ao nível de ser carne e sangue, absorvendo como esponja as “violências sutis e descaradas”, como observou em entrevista a Paulinho Assunção, em meados dos anos de 1970.

De fato, o poeta ainda não faz parte do cânone de nossa literatura também por um cochilo dos críticos e especialistas. Esse fato nem causa muito espanto: revela bem o espírito de nossa época. Pior para a época, alheia às criações deste goiano nascido em um lugar conhecido como Ribeiro das Antas, município de Buriti Alegre, em 1934. Goiano por pouco tempo, é importante registrar: ainda criança, foi se aproximando bem devagar, pelas beiradas, de Minas Gerais. Primeiro, mudou-se para Tupaciguara e, com 16 anos, para Uberlândia – ambas no Triângulo Mineiro -, até chegar, em 1954, a Belo Horizonte, de onde não mais arredou pé. Essa dupla cidadania valeu-lhe a alcunha, creditada ao poeta Bueno de Rivera, de “goianeiro”, uma mistura do campo e da cidade transposta também para os versos.

A lembrança dos pais revela muito a fonte de sua lavra poética: seu Marinho era “homem dos currais e das longas pousadas, a alma feita de bois e os burros brabos”; dona Gabriela, “mulher da bica d’água e das gamelas, as grandes madrugadas do monjolo e a mão-de-pilão nas origens”.

Começou a trabalhar menino ainda, vendendo doces para a mãe e engraxando sapatos. Ao mesmo tempo, descobria a poesia, ouvindo um colega recitar Bilac: “achava bonito e não conseguia recitar bonito daquele jeito, a emoção da poesia me travava o queixo, a fala saía de arranco e todos notavam aquilo, aquilo me abatia”.

No início dos anos 1960, ajudou a fundar a revista Vereda, na companhia de alguns então jovens poetas como Henry Corrêa de Araújo, Valdimir Diniz e Maria do Carmo Ferreira. O objetivo era, sem prescindir da preocupação dos problemas sociais, fazer poesia mais voltada para os ideais do concretismo, como ocorre em seu poema mais conhecido, Pássaro em vertical, que figura ainda hoje em livros didáticos. Em seguida à Vereda, ligou-se ao “Suplemento Literário” do Minas Gerais, fase em que conheceu o poeta Emílio Moura.

Libério Neves (à direita) com Emílio Moura, em 1969 Crédito: Arquivo SLMG
Libério Neves (à direita) com Emílio Moura, em 1969
Crédito: Arquivo SLMG

Entre esses acontecimentos, publicou seus dois primeiros livros, ambos premiados: Pedra solidão, de 1965, e O ermo, de 1968 – e é na estreia que se verifica mais forte a influência concretista. O poeta afirmou em uma entrevista a Carlos Herculano Lopes, em 2007: “A grande conquista que adquiri com os exercícios e a experiência da poesia concreta foi o trabalho diante da palavra. Saber pesquisar a palavra, a sonoridade da palavra e as combinações que ela oferece. Daí julgo ter conseguido uma linguagem que, até certa forma, posso considerar original. A partir de O ermo, já não tenho mais aquele compromisso amoroso do início com a poesia concreta. Pude, então, dar meu grande salto para soprar a minha linguagem do jeito que gosto”.

(…)

Em seus poemas, Libério criou uma estrutura de versos curtos incendiados por uma música verbal singular, que lhe permite ser sofisticado sem ser maneirista, exuberante sem ser barroco. Os poucos felizes que tomaram contato com sua obra de imediato reconheceram a qualidade dela, como, por exemplo, Affonso Ávila, Carlos Drummond de Andrade, Dantas Motta, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes, Oswaldo França Júnior e Silviano Santiago. Este observou que, na poesia de Libério, “O ser humano e a natureza se dão metamorfoseadamente em linguagem. (…) A linguagem poética serve de mecanismo de integração do homem no universo – seu ponto de apoio e seu sentido”.

Libério Neves em 1983 Crédito: Reprodução / Diário do Comércio
Libério Neves em 1983
Crédito: Reprodução / Diário do Comércio

(…)

Ao manejar as palavras, fica claro que é ele que assume o controle por autoridade natural e por sua força de poeta. Ele é um gentleman do verso: há uma classe, uma elegância que ele empresta ao que é dito e no como é dito, promovendo algo assim como um encantamento das palavras. Saímos estimulados de seus versos memoráveis e das questões que suscitam. Há uma justeza no modo como as pessoas e as coisas – pelo filtro da memória – são apresentadas, intensamente espontânea (lembrando de quanto trabalho é preciso para que algo seja lido como “espontâneo”).

Libério acredita no poder da poesia e cada poema seu é um convite para que o leitor experimente esse poder. Ainda é tempo de descobri-lo, e essa descoberta será uma alegria para o poeta e para os leitores.

[Trechos do prefácio de Fabrício Marques para o livro Papel Passado, Editora UFMG, 2013]

*

Leia texto de José Castello sobre Papel Passado.

Visite o site oficial de Libério Neves.

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