O dom silencioso de Otávio Ramos

Otávio Ramos: “O dom silencioso  teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”
Otávio Ramos: “O dom silencioso teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”, disse sobre ele Sebastião Nunes

Otávio Ramos tinha o silêncio em alta conta. E vice-versa.

A editora Dubolso programa ainda para este ano um inédito de Otávio, O Dom Silencioso.

Na crônica “No dia do aniversário de tua morte”, dedicada ao escritor, Sebastião Nunes, um de seus grandes amigos, diz que o título O Dom Silencioso define “a essência de Otávio, sua marca mais pessoal e obstinada. A de negar-se à plena exposição à luz do dia, ou aos holofotes do reconhecimento. Timidez? Não. A melhor palavra para esse dom especial é indiferença”.

Em outra passagem da crônica, Nunes completa: “Era tão discreto que se deitou vestido e foi encontrado pelo filho José na manhã do dia seguinte, morto. O computador estava ligado e ele tinha a expressão tranquila de quem apenas resolvera descansar um pouco. Em 25 de maio completara 56 anos e não parecia doente, embora os amigos próximos soubessem que não era bem assim. Era diabético e de vez em quando, talvez para fugir da depressão ou de seus fantasmas, passava a noite sentado, bebendo cerveja, sozinho. Como fizera exatamente uma semana antes”.

Otávio morreu no dia 24 de setembro de 2005. Era jornalista concursado da Universidade Federal de Minas Gerais, onde ingressou em 1981, na Escola de Veterinária. Em 1994, transferiu-se para a Pró-Reitoria de Extensão da instituição, o Proex. Quando se foi, toda a equipe portou fita preta no braço, em homenagem ao colega.

Otávio Ramos tinha o costume de anotar ideias, frases soltas, possibilidades de textos em papéis esparsos: envelopes de trabalho, circulares, carteira de cigarros, malas-diretas, marcadores de livros, convites postais. Seu filho José encontrou alguns, de 2005. Coisas assim:

A eloquência do silêncio.

A concretude dos espaços em branco.

Os hiatos na comunicação.”

Sol saído da lida do dia.”

Diretor tem que andar a pé, para ter ideias.”

Pássaros (tico-ticos).

Grilos.

O vento.

Sol nasce – apagando as poucas estrelas que restaram.

Aro de luz vai-se estendendo no horizonte.

Do outro lado, ainda escuro.

Luz vai definindo as cores dos morros.

Camaleões de ar de cores diferentes – 1ª: azul escuro; depois, lilás; e 3ª cinza.”

*

Otávio nasceu em Ouro Preto, no dia 25 de maio de 1949. Seu pai, Orlando Ramos, também ouropretano, era médico, atuando em clínica geral e obstetrícia, e professor catedrático da Escola de Farmácia de Ouro Preto. Sua mãe, Nídia Reis Ramos, era de Ponte Nova, professora primária, com grandes pendores para as artes, especialmente música, pintura e cerâmica.

Saiu da cidade histórica mineira por volta de 1967 para fazer o científico em Belo Horizonte. Bem mais tarde, passou uma temporada em Cuiabá,com Marília, mãe de seus dois filhos, e Arnaldo Drummond [hoje professor universitário aposentado], seu grande amigo, de infância, de estudos e de luta contra a ditadura. Otávio foi militante político na década de 1960 e tornou-se um dos raros alunos expulsos da UFMG, pelo decreto 477 do regime de exceção, no início dos anos 1970.

Entre 1977 e 1978, Otávio morou também em Cuiabá, onde realizou um ensaio-reportagem chamado “Função do Cururu”, publicado pela coleção Cadernos Cuiabanos, nº 8. Depois desse período, voltou definitivamente à capital mineira.

Publicou mais oito livros. Seis deles foram lançados por Sebastião Nunes, pela Edições Dubolso ou pela Editora Dubolsinho: (o infantojuvenil Rocambole com maionese, de 2002): Obras completas – Tomo I (1990) e Gibi (1995), ambos de poesia; O juízo final (1997), Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos (1999) e A teia selvagem do mundo (este uma coedição com a Ciência do Acidente 2003). Além desses, saíram Lúmpen (prosa, Edições Novilíngua, 1992) e Pequena história de um anão (seu primeiro infantojuvenil, pela RHJ Livros, 1999).

Capas dos livros
Capas dos livros “Obras completas…” e “Pise devagar…”

O escritor revestia seu silêncio de uma ironia insuperável, encontrada em tudo que escrevia, a começar pelos títulos. Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos era classificado, por ele mesmo, como “um romance revestido de sociologia barata”. Seu livro de estreia recebeu a alcunha paradoxal de Obras completas – Tomo I. Na orelha, Sérgio Sant’anna reconhecia no livro “uma autobiografia muito particular. Feito de poesia, discreta, silenciosa, como o seu autor”. Em outra ocasião, o compositor Francisco Amaral anotou: “um poeta-não / discreto e infalível”.

Como se vê, esse seu traço característico e incontornável, seu “dom silencioso” (da obra e do autor) conduzia sua visão de mundo e sua ética. Não por acaso, registrou, nas últimas linhas de O Juízo Final:  “OBSERVAR FORMA O CARÁTER” Só observa com profundidade quem elimina todos os ruídos e concentra o foco apenas no essencial. 

Num evento em 2007, o jornalista e poeta Regis Gonçalves homenageou Otávio em uma leitura poética. Regis lembrou que o amigo começou a trabalhar com poesia no final dos anos 1970 e começo da década seguinte. “Tivemos uma relação de amizade muito grande e uma aproximação intelectual igualmente intensa”, disse Regis, na ocasião. Os dois participaram da edição de Poesia Livre, publicação concebida por Guilherme Mansur, em Ouro Preto, que registrou os primeiros trabalhos de Otávio – e que seriam reunidos depois no livro de estreia na poesia, em 1990.

Os próximos 15 anos foram de intensa atividade voltada para a literatura e a poesia, o que resultou na publicação dos livros já citados. Discretamente, Otávio burilava cada um, com esmero e toques de experimentação. Parecia concordar com a avaliação de Sebastião Nunes: “O dom silencioso teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”. Mas os seus livros estão todos aí, em bibliotecas, sebos e na editora Dubolso. À espera de algum leitor que, em contato com seus escritos provocadores, transforme o silêncio em fagulhas.

Poema-citação de Otávio Ramos / e. e. cummings, do livro
Poema-citação de Otávio Ramos / e. e. cummings, do livro “Obras completas…”. Tradução de Paulo Octaviano Terra, programação visual de Sebastião Nunes

*

Você precisa conhecer o Otávio”, disse-me um dia sua mulher, Lu Resende, em 1993. Nós nos conhecemos pouco depois e logo ficamos chegados. Ele foi meu primeiro amigo escritor em Belo Horizonte. Escrevi uma pequena resenha sobre o Gibi, em 1995, que foi publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG) Por meio do Otávio, conheci o Sebastião Nunes e o Jaime Prado Gouvêa. Convivemos mais intensamente em 2004, quando editei o SLMG e o Otávio fazia parte do conselho editorial. Sua morte, no ano seguinte, foi um choque para todos nós. Mas ter convivido com ele por 12 anos valeu a pena.

Obrigado, Lou, por esse presente.

*

Leia a crônica “No dia do aniversário de tua morte”, de Sebastião Nunes.

Veja uma entrevista de Otávio ao programa Vereda Literária, de Helton Gonçalves, exibida em 12 de maio de 2000.

Leia uma resenha de Nelson de Oliveira sobre A teia selvagem do mundo, publicada na revista eletrônica Bestiário.

*

[Este post é dedicado aos filhos José e João (in memoriam); aos irmãos Adriano, Marrege e Mariângela; a Chico Amaral, Lu Resende e Marília Bizzoto.]

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4 comentários sobre “O dom silencioso de Otávio Ramos

  1. Mariângela Ramos Pimenta 23 de junho de 2015 / 15:14

    Obrigada, Fabrício, por me trazer, tão perto, meu irmão. Gostei do texto, e muito do seu blog. Conheci aqui alguns poetas (que bela fusão ficção e poesia de Paulinho Assunção!) e revi Oswaldo França Jr. Estarei, daqui em diante, sempre presente. Um abraço.

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    • cartografos 23 de junho de 2015 / 16:46

      Mariângela, falar do Otávio é uma honra para mim. Obrigado por seus comentários, é sempre bem-vinda. Um abraço!

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  2. Pedro Hussak van Velthen Ramos 14 de julho de 2015 / 01:55

    Sou sobrinho do Otávio, e fiquei muito feliz com esse trabalho, meus parabéns

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