Paulinho Assunção, um viajante nos barcos da imaginação

Paulinho Assunção,  aliás, Lucas Baldus, aliás, João Serenus, aliás Rubem Focs., aliás Vicente Gunz. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção
Paulinho Assunção, aliás, Lucas Baldus, aliás, João Serenus, aliás Rubem Focs., aliás Vicente Gunz.
Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção

A RUA E A LÍNGUA

ruar é o verbo que faz a rua puxar a língua
das almofadas, dos veludos, das pantufas, a rua

puxa a língua para a rua, sai, língua, sai, sai
de dentro de casa e vai ao sol, o sol, a pele

morena da rua pede à língua sua companhia, vem,
língua, vem, vem à esquina, vem à noite sonsa

do perigo no beco mais imundo, aos becos,
aos copos, ruar, ruar, ruar, meu nome é rua,

sobrenome esquina, vem, língua, vem, sai
do mofo de sua casa, sai de dentro

do papelório, vem brincar na rua, língua, vem,
seus artefatos, suas sintaxes, suas semanticalices

e seus guardados, vem, há o crime, há a faca,
há a fome, os desesperados pedem, chamam,

gritam, vem, língua, vem à manhã do desespero
solar, vem ao lixo, vem ao dia sem amanhã,

vem ao vírus do dia claro, do falar errado,
vem à boca dos que não falam, vem ao rito

sem ritual do pão em falta, vem, língua, vem
à rua da minha cidade, vem sujar a língua.

(Paulinho Assunção)

*

Uma noite dessas, no Maletta, eu estava conversando com o poeta Ricardo Aleixo e o rumo da prosa se desviou inevitavelmente para a poesia, e falando de poesia e poetas acabamos (ou começamos) parando em Paulinho Assunção, escritor da prateleira de cima, capaz de produzir poemas como “Ruar” – que mereceu o duplo entusiasmo, de Ricardo e o meu.

*

Em 2004, por acaso eu era o editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, e por acaso havia uma seção chamada “Primeira pessoa”, em que escritores eram convidados a falar sobre si mesmos, e não por acaso escalei Paulinho para uma das edições. A certa altura de seu depoimento, “Todo escritor é um estrangeiro”, ele anotou:

Nada tem a ver o ato de escrever com aquele propalado clichê de que escrever é um ato solitário. Escrever, na verdade, é talvez o mais íntimo dos atos, mas nada tem de solitário. O ato de escrever, pelo menos como eu o entendo, é o momento da mais profunda e avassaladora conexão com o mundo. É a intimidade não isolada, é a íntima porção de tempo contagiada pelas coisas do mundo. Nos arredores e nas margens de uma folha em branco de papel, tudo o que entendemos por mundo vem participar do ato de escrever. Ali acontece a íntima comunhão — e, aqui, destituo da palavra comunhão qualquer resquício de religiosidade. É, talvez, aquela comunhão implícita no trecho de uma carta de Paul Celan a Hans Bender, quando o poeta diz: “Je ne vois pas de différence de principe entre un poème et une poignée de main”. Em outras palavras: é o poema (e eu diria: a escrita) posto no mesmo patamar de um aperto de mão”.

*

Paulinho e o Suplemento. Ele foi membro da comissão de redação do “Suplemento Literário” do “Minas Gerais” no começo dos anos 80, como parte da equipe coordenada pelo escritor Murilo Rubião. Um período especialmente criativo na história do jornal, cujo planejamento gráfico estava nas mãos e na cabeça de Sebastião Nunes. Foi nesse período que li o primeiro de Paulinho, “Eh eh ô cidade”, instantaneamente incluindo-o no time de autores a quem eu devia prestar atenção.

*

Ele estreou com “cantigas de Amor & Outras Geografias”, livro de poemas de 1980. De lá para cá foram 16 lançamentos, incluindo aí contos, infantojuvenis, uma biografia sobre Fritz Teixeira de Salles e uma crônica afetiva a respeito do Edifício Maletta.

No blog pessoal do autor há aperitivos suficientes para quem ainda não o conhece. Destaco, aqui, um trecho de seu autorretrato:

“Nasci sob o império dos números ímpares. O dia: 21. O mês: 7. O ano: 51. A hora: 11 da noite.

Sou do interior de Minas, dos altos do Paranaíba de chapadões e planaltos. A cidade é São Gotardo. Mas sou do mundo. Deleito-me com água na boca pelas trilhas e rastros de povos, línguas, artes, culturas em suas legítimas diferenças.

Já corri mundo e já corri perigo, desde bem jovem. Hoje viajo nos barcos da imaginação.

Não sou motorista. Entre o carro e a flauta, viajo flautista. Só dirijo mesmo os meus sapatos náuticos. Neles, nesses sapatos filosóficos de navegações em terra, moram os meus pés escreventes, pés de andar a esmo e sem governo pelas cidades que existem dentro das cidades.

Escrevo desde o final da infância/começo da adolescência. Primeiro: poesia. Depois: ficção. Mais adiante: poesia e ficção. Hoje não dou a mínima para os gêneros e gosto da cópula entre a linha que é o verso e o parágrafo que é a ficção.

Sei fazer livros à mão, pela minha Edições 2 Luas. Nesses livros artesanais, gosto de mergulhar pelos mistérios das lentitudes e do fazer sem pressa.

Pessoas de Romance é a expressão que aplico a meus interlocutores em sombras, figuras de boa conversa e amável convivência, escreventes quando querem e quando necessitam, pois a escrita, para eles, é da ordem das necessidades imperativas e degustativas. Ei-los: Lucas Baldus, João Serenus, Rubem Focs, Cida La Lampe, Vicente Gunz, Vicente Almas, Vicente Pass, Lírio da Luz, Severus Cândido ou a Mulher da Aura Azul.”

Confira aqui o blog:

http://paulinhoassuncao.blogspot.com.br/

Da esquerda para a direita: Ronald Claver, Oswaldo França Júnior, Branca Maria de Paula, Murilo Rubião e Paulinho Assunção, nos anos 1980. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção
Da esquerda para a direita: Ronald Claver, Oswaldo França Júnior, Branca Maria de Paula, Murilo Rubião e Paulinho Assunção, nos anos 1980. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção
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