Libério Neves, o gentleman do verso

Libério Neves Crédito: Arquivo pessoal / Libério Neves
Libério Neves
Crédito: Arquivo pessoal / Libério Neves

[Um poema de Libério Neves]

DO SER O SER E SER SEU PARECER

No quando em conversando assim contigo
e tido em ser um ser assim sincero
sou uma sombra boa, um vulto amigo

e sou, quando te falo, e quando sério
um grave ser sutil que nesta vida
transcende ao anjo, ardendo-se matéria

minha palavra então espessa vibra
ou tímida se evola, ou gruda como visgo
nos corações melífl uos das pessoas.

Contudo quando durmo (quando em sonho)
ou quando em meus re-versos me componho
um outro eu, em mim, pulsa e ressoa

uma linguagem funda e diferente!
pois uma coisa é ter-se o meu retrato
que mostra o magro rosto externamente,

enquanto que mostrado, em raios-X,
o dentro é contraponto e ponte exata
entre o ser-se o que é e o que se diz:

bem mais que olhos mansos nas capelas
ser o suspiro posto à luz das velas
queimando entre ser alma e ser matriz.

Uma parte do silêncio em torno do excelente poeta Libério Neves, 27 livros publicados, debita-se ao seu temperamento discreto e reservado. É quase como se ele tivesse feito um trato com a vida: de um lado, fingem não vê-lo; contudo, no seu canto, sabe-se Poeta, entre grandes, mas não espalha a notícia para ninguém. Não há ressentimento, muito embora concorde com Drummond, que o poeta é um ressentido, pois esse ressentimento de que fala traz o poeta ao nível de ser carne e sangue, absorvendo como esponja as “violências sutis e descaradas”, como observou em entrevista a Paulinho Assunção, em meados dos anos de 1970.

De fato, o poeta ainda não faz parte do cânone de nossa literatura também por um cochilo dos críticos e especialistas. Esse fato nem causa muito espanto: revela bem o espírito de nossa época. Pior para a época, alheia às criações deste goiano nascido em um lugar conhecido como Ribeiro das Antas, município de Buriti Alegre, em 1934. Goiano por pouco tempo, é importante registrar: ainda criança, foi se aproximando bem devagar, pelas beiradas, de Minas Gerais. Primeiro, mudou-se para Tupaciguara e, com 16 anos, para Uberlândia – ambas no Triângulo Mineiro -, até chegar, em 1954, a Belo Horizonte, de onde não mais arredou pé. Essa dupla cidadania valeu-lhe a alcunha, creditada ao poeta Bueno de Rivera, de “goianeiro”, uma mistura do campo e da cidade transposta também para os versos.

A lembrança dos pais revela muito a fonte de sua lavra poética: seu Marinho era “homem dos currais e das longas pousadas, a alma feita de bois e os burros brabos”; dona Gabriela, “mulher da bica d’água e das gamelas, as grandes madrugadas do monjolo e a mão-de-pilão nas origens”.

Começou a trabalhar menino ainda, vendendo doces para a mãe e engraxando sapatos. Ao mesmo tempo, descobria a poesia, ouvindo um colega recitar Bilac: “achava bonito e não conseguia recitar bonito daquele jeito, a emoção da poesia me travava o queixo, a fala saía de arranco e todos notavam aquilo, aquilo me abatia”.

No início dos anos 1960, ajudou a fundar a revista Vereda, na companhia de alguns então jovens poetas como Henry Corrêa de Araújo, Valdimir Diniz e Maria do Carmo Ferreira. O objetivo era, sem prescindir da preocupação dos problemas sociais, fazer poesia mais voltada para os ideais do concretismo, como ocorre em seu poema mais conhecido, Pássaro em vertical, que figura ainda hoje em livros didáticos. Em seguida à Vereda, ligou-se ao “Suplemento Literário” do Minas Gerais, fase em que conheceu o poeta Emílio Moura.

Libério Neves (à direita) com Emílio Moura, em 1969 Crédito: Arquivo SLMG
Libério Neves (à direita) com Emílio Moura, em 1969
Crédito: Arquivo SLMG

Entre esses acontecimentos, publicou seus dois primeiros livros, ambos premiados: Pedra solidão, de 1965, e O ermo, de 1968 – e é na estreia que se verifica mais forte a influência concretista. O poeta afirmou em uma entrevista a Carlos Herculano Lopes, em 2007: “A grande conquista que adquiri com os exercícios e a experiência da poesia concreta foi o trabalho diante da palavra. Saber pesquisar a palavra, a sonoridade da palavra e as combinações que ela oferece. Daí julgo ter conseguido uma linguagem que, até certa forma, posso considerar original. A partir de O ermo, já não tenho mais aquele compromisso amoroso do início com a poesia concreta. Pude, então, dar meu grande salto para soprar a minha linguagem do jeito que gosto”.

(…)

Em seus poemas, Libério criou uma estrutura de versos curtos incendiados por uma música verbal singular, que lhe permite ser sofisticado sem ser maneirista, exuberante sem ser barroco. Os poucos felizes que tomaram contato com sua obra de imediato reconheceram a qualidade dela, como, por exemplo, Affonso Ávila, Carlos Drummond de Andrade, Dantas Motta, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes, Oswaldo França Júnior e Silviano Santiago. Este observou que, na poesia de Libério, “O ser humano e a natureza se dão metamorfoseadamente em linguagem. (…) A linguagem poética serve de mecanismo de integração do homem no universo – seu ponto de apoio e seu sentido”.

Libério Neves em 1983 Crédito: Reprodução / Diário do Comércio
Libério Neves em 1983
Crédito: Reprodução / Diário do Comércio

(…)

Ao manejar as palavras, fica claro que é ele que assume o controle por autoridade natural e por sua força de poeta. Ele é um gentleman do verso: há uma classe, uma elegância que ele empresta ao que é dito e no como é dito, promovendo algo assim como um encantamento das palavras. Saímos estimulados de seus versos memoráveis e das questões que suscitam. Há uma justeza no modo como as pessoas e as coisas – pelo filtro da memória – são apresentadas, intensamente espontânea (lembrando de quanto trabalho é preciso para que algo seja lido como “espontâneo”).

Libério acredita no poder da poesia e cada poema seu é um convite para que o leitor experimente esse poder. Ainda é tempo de descobri-lo, e essa descoberta será uma alegria para o poeta e para os leitores.

[Trechos do prefácio de Fabrício Marques para o livro Papel Passado, Editora UFMG, 2013]

*

Leia texto de José Castello sobre Papel Passado.

Visite o site oficial de Libério Neves.

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O dom silencioso de Otávio Ramos

Otávio Ramos: “O dom silencioso  teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”
Otávio Ramos: “O dom silencioso teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”, disse sobre ele Sebastião Nunes

Otávio Ramos tinha o silêncio em alta conta. E vice-versa.

A editora Dubolso programa ainda para este ano um inédito de Otávio, O Dom Silencioso.

Na crônica “No dia do aniversário de tua morte”, dedicada ao escritor, Sebastião Nunes, um de seus grandes amigos, diz que o título O Dom Silencioso define “a essência de Otávio, sua marca mais pessoal e obstinada. A de negar-se à plena exposição à luz do dia, ou aos holofotes do reconhecimento. Timidez? Não. A melhor palavra para esse dom especial é indiferença”.

Em outra passagem da crônica, Nunes completa: “Era tão discreto que se deitou vestido e foi encontrado pelo filho José na manhã do dia seguinte, morto. O computador estava ligado e ele tinha a expressão tranquila de quem apenas resolvera descansar um pouco. Em 25 de maio completara 56 anos e não parecia doente, embora os amigos próximos soubessem que não era bem assim. Era diabético e de vez em quando, talvez para fugir da depressão ou de seus fantasmas, passava a noite sentado, bebendo cerveja, sozinho. Como fizera exatamente uma semana antes”.

Otávio morreu no dia 24 de setembro de 2005. Era jornalista concursado da Universidade Federal de Minas Gerais, onde ingressou em 1981, na Escola de Veterinária. Em 1994, transferiu-se para a Pró-Reitoria de Extensão da instituição, o Proex. Quando se foi, toda a equipe portou fita preta no braço, em homenagem ao colega.

Otávio Ramos tinha o costume de anotar ideias, frases soltas, possibilidades de textos em papéis esparsos: envelopes de trabalho, circulares, carteira de cigarros, malas-diretas, marcadores de livros, convites postais. Seu filho José encontrou alguns, de 2005. Coisas assim:

A eloquência do silêncio.

A concretude dos espaços em branco.

Os hiatos na comunicação.”

Sol saído da lida do dia.”

Diretor tem que andar a pé, para ter ideias.”

Pássaros (tico-ticos).

Grilos.

O vento.

Sol nasce – apagando as poucas estrelas que restaram.

Aro de luz vai-se estendendo no horizonte.

Do outro lado, ainda escuro.

Luz vai definindo as cores dos morros.

Camaleões de ar de cores diferentes – 1ª: azul escuro; depois, lilás; e 3ª cinza.”

*

Otávio nasceu em Ouro Preto, no dia 25 de maio de 1949. Seu pai, Orlando Ramos, também ouropretano, era médico, atuando em clínica geral e obstetrícia, e professor catedrático da Escola de Farmácia de Ouro Preto. Sua mãe, Nídia Reis Ramos, era de Ponte Nova, professora primária, com grandes pendores para as artes, especialmente música, pintura e cerâmica.

Saiu da cidade histórica mineira por volta de 1967 para fazer o científico em Belo Horizonte. Bem mais tarde, passou uma temporada em Cuiabá,com Marília, mãe de seus dois filhos, e Arnaldo Drummond [hoje professor universitário aposentado], seu grande amigo, de infância, de estudos e de luta contra a ditadura. Otávio foi militante político na década de 1960 e tornou-se um dos raros alunos expulsos da UFMG, pelo decreto 477 do regime de exceção, no início dos anos 1970.

Entre 1977 e 1978, Otávio morou também em Cuiabá, onde realizou um ensaio-reportagem chamado “Função do Cururu”, publicado pela coleção Cadernos Cuiabanos, nº 8. Depois desse período, voltou definitivamente à capital mineira.

Publicou mais oito livros. Seis deles foram lançados por Sebastião Nunes, pela Edições Dubolso ou pela Editora Dubolsinho: (o infantojuvenil Rocambole com maionese, de 2002): Obras completas – Tomo I (1990) e Gibi (1995), ambos de poesia; O juízo final (1997), Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos (1999) e A teia selvagem do mundo (este uma coedição com a Ciência do Acidente 2003). Além desses, saíram Lúmpen (prosa, Edições Novilíngua, 1992) e Pequena história de um anão (seu primeiro infantojuvenil, pela RHJ Livros, 1999).

Capas dos livros
Capas dos livros “Obras completas…” e “Pise devagar…”

O escritor revestia seu silêncio de uma ironia insuperável, encontrada em tudo que escrevia, a começar pelos títulos. Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos era classificado, por ele mesmo, como “um romance revestido de sociologia barata”. Seu livro de estreia recebeu a alcunha paradoxal de Obras completas – Tomo I. Na orelha, Sérgio Sant’anna reconhecia no livro “uma autobiografia muito particular. Feito de poesia, discreta, silenciosa, como o seu autor”. Em outra ocasião, o compositor Francisco Amaral anotou: “um poeta-não / discreto e infalível”.

Como se vê, esse seu traço característico e incontornável, seu “dom silencioso” (da obra e do autor) conduzia sua visão de mundo e sua ética. Não por acaso, registrou, nas últimas linhas de O Juízo Final:  “OBSERVAR FORMA O CARÁTER” Só observa com profundidade quem elimina todos os ruídos e concentra o foco apenas no essencial. 

Num evento em 2007, o jornalista e poeta Regis Gonçalves homenageou Otávio em uma leitura poética. Regis lembrou que o amigo começou a trabalhar com poesia no final dos anos 1970 e começo da década seguinte. “Tivemos uma relação de amizade muito grande e uma aproximação intelectual igualmente intensa”, disse Regis, na ocasião. Os dois participaram da edição de Poesia Livre, publicação concebida por Guilherme Mansur, em Ouro Preto, que registrou os primeiros trabalhos de Otávio – e que seriam reunidos depois no livro de estreia na poesia, em 1990.

Os próximos 15 anos foram de intensa atividade voltada para a literatura e a poesia, o que resultou na publicação dos livros já citados. Discretamente, Otávio burilava cada um, com esmero e toques de experimentação. Parecia concordar com a avaliação de Sebastião Nunes: “O dom silencioso teimava em reivindicar uma literatura silenciosa”. Mas os seus livros estão todos aí, em bibliotecas, sebos e na editora Dubolso. À espera de algum leitor que, em contato com seus escritos provocadores, transforme o silêncio em fagulhas.

Poema-citação de Otávio Ramos / e. e. cummings, do livro
Poema-citação de Otávio Ramos / e. e. cummings, do livro “Obras completas…”. Tradução de Paulo Octaviano Terra, programação visual de Sebastião Nunes

*

Você precisa conhecer o Otávio”, disse-me um dia sua mulher, Lu Resende, em 1993. Nós nos conhecemos pouco depois e logo ficamos chegados. Ele foi meu primeiro amigo escritor em Belo Horizonte. Escrevi uma pequena resenha sobre o Gibi, em 1995, que foi publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG) Por meio do Otávio, conheci o Sebastião Nunes e o Jaime Prado Gouvêa. Convivemos mais intensamente em 2004, quando editei o SLMG e o Otávio fazia parte do conselho editorial. Sua morte, no ano seguinte, foi um choque para todos nós. Mas ter convivido com ele por 12 anos valeu a pena.

Obrigado, Lou, por esse presente.

*

Leia a crônica “No dia do aniversário de tua morte”, de Sebastião Nunes.

Veja uma entrevista de Otávio ao programa Vereda Literária, de Helton Gonçalves, exibida em 12 de maio de 2000.

Leia uma resenha de Nelson de Oliveira sobre A teia selvagem do mundo, publicada na revista eletrônica Bestiário.

*

[Este post é dedicado aos filhos José e João (in memoriam); aos irmãos Adriano, Marrege e Mariângela; a Chico Amaral, Lu Resende e Marília Bizzoto.]

Paulinho Assunção, um viajante nos barcos da imaginação

Paulinho Assunção,  aliás, Lucas Baldus, aliás, João Serenus, aliás Rubem Focs., aliás Vicente Gunz. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção
Paulinho Assunção, aliás, Lucas Baldus, aliás, João Serenus, aliás Rubem Focs., aliás Vicente Gunz.
Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção

A RUA E A LÍNGUA

ruar é o verbo que faz a rua puxar a língua
das almofadas, dos veludos, das pantufas, a rua

puxa a língua para a rua, sai, língua, sai, sai
de dentro de casa e vai ao sol, o sol, a pele

morena da rua pede à língua sua companhia, vem,
língua, vem, vem à esquina, vem à noite sonsa

do perigo no beco mais imundo, aos becos,
aos copos, ruar, ruar, ruar, meu nome é rua,

sobrenome esquina, vem, língua, vem, sai
do mofo de sua casa, sai de dentro

do papelório, vem brincar na rua, língua, vem,
seus artefatos, suas sintaxes, suas semanticalices

e seus guardados, vem, há o crime, há a faca,
há a fome, os desesperados pedem, chamam,

gritam, vem, língua, vem à manhã do desespero
solar, vem ao lixo, vem ao dia sem amanhã,

vem ao vírus do dia claro, do falar errado,
vem à boca dos que não falam, vem ao rito

sem ritual do pão em falta, vem, língua, vem
à rua da minha cidade, vem sujar a língua.

(Paulinho Assunção)

*

Uma noite dessas, no Maletta, eu estava conversando com o poeta Ricardo Aleixo e o rumo da prosa se desviou inevitavelmente para a poesia, e falando de poesia e poetas acabamos (ou começamos) parando em Paulinho Assunção, escritor da prateleira de cima, capaz de produzir poemas como “Ruar” – que mereceu o duplo entusiasmo, de Ricardo e o meu.

*

Em 2004, por acaso eu era o editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, e por acaso havia uma seção chamada “Primeira pessoa”, em que escritores eram convidados a falar sobre si mesmos, e não por acaso escalei Paulinho para uma das edições. A certa altura de seu depoimento, “Todo escritor é um estrangeiro”, ele anotou:

Nada tem a ver o ato de escrever com aquele propalado clichê de que escrever é um ato solitário. Escrever, na verdade, é talvez o mais íntimo dos atos, mas nada tem de solitário. O ato de escrever, pelo menos como eu o entendo, é o momento da mais profunda e avassaladora conexão com o mundo. É a intimidade não isolada, é a íntima porção de tempo contagiada pelas coisas do mundo. Nos arredores e nas margens de uma folha em branco de papel, tudo o que entendemos por mundo vem participar do ato de escrever. Ali acontece a íntima comunhão — e, aqui, destituo da palavra comunhão qualquer resquício de religiosidade. É, talvez, aquela comunhão implícita no trecho de uma carta de Paul Celan a Hans Bender, quando o poeta diz: “Je ne vois pas de différence de principe entre un poème et une poignée de main”. Em outras palavras: é o poema (e eu diria: a escrita) posto no mesmo patamar de um aperto de mão”.

*

Paulinho e o Suplemento. Ele foi membro da comissão de redação do “Suplemento Literário” do “Minas Gerais” no começo dos anos 80, como parte da equipe coordenada pelo escritor Murilo Rubião. Um período especialmente criativo na história do jornal, cujo planejamento gráfico estava nas mãos e na cabeça de Sebastião Nunes. Foi nesse período que li o primeiro de Paulinho, “Eh eh ô cidade”, instantaneamente incluindo-o no time de autores a quem eu devia prestar atenção.

*

Ele estreou com “cantigas de Amor & Outras Geografias”, livro de poemas de 1980. De lá para cá foram 16 lançamentos, incluindo aí contos, infantojuvenis, uma biografia sobre Fritz Teixeira de Salles e uma crônica afetiva a respeito do Edifício Maletta.

No blog pessoal do autor há aperitivos suficientes para quem ainda não o conhece. Destaco, aqui, um trecho de seu autorretrato:

“Nasci sob o império dos números ímpares. O dia: 21. O mês: 7. O ano: 51. A hora: 11 da noite.

Sou do interior de Minas, dos altos do Paranaíba de chapadões e planaltos. A cidade é São Gotardo. Mas sou do mundo. Deleito-me com água na boca pelas trilhas e rastros de povos, línguas, artes, culturas em suas legítimas diferenças.

Já corri mundo e já corri perigo, desde bem jovem. Hoje viajo nos barcos da imaginação.

Não sou motorista. Entre o carro e a flauta, viajo flautista. Só dirijo mesmo os meus sapatos náuticos. Neles, nesses sapatos filosóficos de navegações em terra, moram os meus pés escreventes, pés de andar a esmo e sem governo pelas cidades que existem dentro das cidades.

Escrevo desde o final da infância/começo da adolescência. Primeiro: poesia. Depois: ficção. Mais adiante: poesia e ficção. Hoje não dou a mínima para os gêneros e gosto da cópula entre a linha que é o verso e o parágrafo que é a ficção.

Sei fazer livros à mão, pela minha Edições 2 Luas. Nesses livros artesanais, gosto de mergulhar pelos mistérios das lentitudes e do fazer sem pressa.

Pessoas de Romance é a expressão que aplico a meus interlocutores em sombras, figuras de boa conversa e amável convivência, escreventes quando querem e quando necessitam, pois a escrita, para eles, é da ordem das necessidades imperativas e degustativas. Ei-los: Lucas Baldus, João Serenus, Rubem Focs, Cida La Lampe, Vicente Gunz, Vicente Almas, Vicente Pass, Lírio da Luz, Severus Cândido ou a Mulher da Aura Azul.”

Confira aqui o blog:

http://paulinhoassuncao.blogspot.com.br/

Da esquerda para a direita: Ronald Claver, Oswaldo França Júnior, Branca Maria de Paula, Murilo Rubião e Paulinho Assunção, nos anos 1980. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção
Da esquerda para a direita: Ronald Claver, Oswaldo França Júnior, Branca Maria de Paula, Murilo Rubião e Paulinho Assunção, nos anos 1980. Crédito: Arquivo pessoal / Paulinho Assunção

Manoel Lobato: a lucidez da loucura, a loucura da lucidez

O escritor Manoel Lobato completa em dezembro 90 anos e merece todas as loas.

Dezessete livros publicados (entre contos, novelas e romances), ele estreou como cronista, em O Tempo, em 1996. Até 2005, publicou mais de 3 mil crônicas nesse jornal. Nessa época, em conversa com o jornalista Júlio Assis, seu companheiro de diário, ele declarou: “Eu acho ruim estar velho e não digo isso com frescura. Há uma parábola antiga, sobre uma embarcação, que o Nelson Rodrigues adaptou da seguinte forma, a velhice é como farol traseiro do carro, só ilumina quando você dá ré, então não vale nada”.

Em sua casa, no bairro Sagrada Família, em Belo Horizonte, escrevia suas crônicas em uma velha máquina Olivetti. Na já citada entrevista ao Júlio Assis, ele descreveu os temas que mais dominam suas crônicas: sexo, misticismo e loucura. “Sexo porque Freud já mostrou que tudo gira em torno dele; o misticismo é algo sempre instigante pelo impasse entre os que acreditam e os que não crêem; e loucura porque acho que ninguém é normal, pelo menos eu acho que não sou. Escrever, aliás, para mim, é uma catarse. Como já tenho uma personalidade cristalizada e não adianta ir a psiquiatra, então escrevo”, disse.

Nascido em Açaraí (MG), em 1925, Manoel veio para Belo Horizonte em 1965. Tinha uma farmácia na rua Oiapoque, perto da Rodoviária, no Baixo Belô. Sua estreia na literatura aconteceu quatro anos antes, com Garrucha 44.

Em 2002 foi lançado seu penúltimo livro (de memórias), Cartas na Mesa, pela coleção Memória Brasileira da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, de São Paulo. Os mais recentes foram Sagrada Família, dentro da coleção BH: a cidade de cada um, em 2007; e Conversa mole, vida dura (crônicas selecionadas), pela editora Dubolsinho, em 2008.

Humberto Werneck, João Antônio e Manoel Lobato, na redação do SLMG. Crédito: Imprensa Oficial / SLMG
Humberto Werneck, João Antônio e Manoel Lobato, na redação do SLMG.
Crédito: Imprensa Oficial / SLMG

Leia, a seguir, uma crônica de Manoel Lobato:

O FILHO DO HOMEM

“O pai do moço morre na cadeia, enforcado. Líder dos sem-teto, sabia de cor tiradas ditirâmbicas. Ao menino falou: “Se a polícia te perseguir por causa de mim, meu filho, lembra-te de que estou sempre a teu lado.”
O rapaz declara ao repórter que seu pai não tinha idéias de suicídio. É recolhido à Delegacia Especializada de Orientação a Menores, a DEOM de Belo Horizonte. Solto, ele fica no morro da favela. Sua mãe não o deixa sair de casa. “Papai foi escolhido para cristo”, ele repete.
Por amor, a mãe faz maldade. Inventam o diabo para fazer medo à mulher e a seu filho de 16 anos. O diabo existe para provar a bondade de Deus. O criador permite o mal porque é bom. Deus é amor.
O jovem convida a mãe para um passeio à cidade: “Vamos ver a praça Sete, mãe?” Ela responde: “Hoje não posso. Tenho de passar a roupa.” O filho argumenta: “Esta noite é Natal. As ruas devem estar cheias de fieira de lâmpadas miúdas. Tudo enfeitado: luz, cor, som e brilho. Posso ir sozinho?” A mãe diz: “Os herodes te pegam de novo.” O rapaz apela: “Meu pai protege a gente.”
A mulher fica sozinha no barraco. Vê seu menino descendo com o jeito do pai. Uma só pessoa: pai, filho e o espírito natalino. Dulcíssima trindade. O garoto olha para o céu, como se estivesse agradecendo ao pai a liberdade que a mãe lhe dá.
A noite de Natal é a menor do ano, no Brasil, segundo crê a mulher. A noite deste ano está sendo a mais longa na vida da mãe e do menino. Ele não volta.”

Manoel Lobato em sua casa, no bairro Sagrada Família Crèdito: O Tempo / Divulgação
Manoel Lobato em sua casa, no bairro Sagrada Família
Crèdito: O Tempo / Divulgação

Luiz Vilela e a necessidade vital de escrever

Luiz Vilela no Parque Municipal de Belo Horizonte, nos anos 1960 Crèdito: Luiz Vilela / Arquivo Pessoal
Luiz Vilela no Parque Municipal de Belo Horizonte, nos anos 1960
Crèdito: Luiz Vilela / Arquivo Pessoal

Luiz Vilela tinha apenas 24 anos quando estreou na literatura com o livro de contos “Tremor de terra”, em 1967. Este mineiro de Ituiutaba, nascido em 1942, fez uma das estreias mais impressionantes das letras brasileiras, com um livro maduro e repleto de excelentes contos, o que resultou em consagrações instantâneas, do livro e do autor.

Um dos contos do livro, “Deus sabe o que faz”, tem uma dos melhores aberturas da ficção produzida em qualquer país:

Deus sabe o que faz e por isso a criança nasceu cega, mas Deus sabe o que faz e ela cresceu forte e sadia, não teve coqueluche nem bronquite como os outros filhos – o mais velho, aos vinte e poucos anos já vivia na pinga, cometeu um crime e foi parar na cadeia; a menina cresceu, virou moça, casou, traiu o marido, separou, virou prostituta; o cego tinha o ouvido bom e aprendeu a tocar violão e aos quinze anos já tocava violão como ninguém, um verdadeiro artista, porque Deus sabe o que faz e para tudo nesse mundo há uma compensação (…)”.

De lá pra cá, já são diversas publicações, entre contos, romances e novelas.

Antes de sua estreia literária, Luiz Vilela criou, juntamente com outros escritores mineiros, como Luiz Gonzaga Vieira e Wanda Figueiredo, a revista “Estória”, que em 2015 completa 50 anos de seu lançamento. O primeiro número foi lançado em outubro de 1965. O sexto e último número da revista saiu em 1968.

Entrevistei Vilela para a edição 1.340 do “Suplemento Literário de Minas Gerais”, de janeiro/fevereiro de 2012, quando ele estava lançando seu romance mais recente, “Perdição” (no mesmo número, há uma resenha de Francisco de Morais Mendes sobre o livro). Destaco aqui dois trechos dessa conversa:

Desisti de escrever porque há um excesso de verdade no mundo”, disse Otto Rank. Como você avalia essa afirmação? -Como não conheço o contexto em que ela foi feita, não posso avaliá-la. Quanto a mim, o que eu acho que há no mundo é um excesso de mentira, o que me causa muita indignação e me leva a continuar escrevendo.

Em 1978, durante o XII Encontro Nacional de Escritores, em Brasília, numa palestra sua intitulada “Por que escrevo ficção”, mais tarde publicada na edição comemorativa do número 1000 deste Suplemento, você disse o seguinte: “Escrevo ficção por uma necessidade de contar histórias, não importa a quem nem para quê. Uma necessidade que surgiu na adolescência e que com o tempo se tornou tão vital quanto comer e dormir, e, em certas circunstâncias, até mais. Hoje, não consigo me imaginar vivendo sem escrever. Parar de escrever seria uma espécie de morte – seria realmente morrer. Assim, sabendo ou não sabendo por quê, escrever ficção é o que eu faço e é o que eu certamente farei até o fim de minha vida.” Você alteraria algo nesta declaração ou lhe acrescentaria algo? -Não, eu não alteraria nem acrescentaria nada. Mas gostaria de dizer, aqui, que, de lá para cá, nestas três décadas, eu publiquei dois livros de contos, três novelas e quatro romances, além de ter escrito, nos últimos anos, para próxima publicação, um novo livro de contos, uma nova novela e um novo romance. Ou seja, eu nunca parei nem me desviei de minha meta. Tendo começado a escrever aos 13 anos, já são, portanto, 55 anos escrevendo ficção. E é isso o que eu, agora, espero continuar fazendo até o fim de minha vida: escrever ficção.

Tirinha publicada no Estado de Minas em 1983 cita músicos e também escritores, como Luiz Viela
Tirinha publicada no Estado de Minas em 1983 cita músicos e também escritores, como Luiz Viela

Para saber mais sobre o escritor, acesse este blog: http://gpluizvilela.blogspot.com.br/p/noticias.html

Informações sobre a revista Estória estão em um texto de Luiz Ruffato, aqui: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/revistas-literarias-em-belo-horizonte/

A entrevista com Vilela e a resenha do livro “Perdição” estão aqui: http://www.ciclope.com.br/wp-content/uploads/2013/11/2012-janeiro-fevereiro-slmg.pdf