O inclassificável Jarbas Medeiros

MANIFESTO À GENTE ANÔNIMA

Neuróticos anônimos, Alcoólicos Anônimos, narcóticos                            Anônimos, fumantes Anônimos, dependentes químicos                   Anônimos, comedores compulsivos Anônimos, jogadores                     Anônimos, introvertidos Anônimos, mulheres que amam                                 demais, dependentes de amor e de sexo Anônimos,

(…)

Internautas Netviciados Anônimos,                                                                     Doentes Terminais Anônimos, Vítimas                                                          Anônimas da Síndrome de Fadiga Crônica, Anônimos                   Anônimos, eu vos imploro, erguei-vos, uni-vos e abandonai                           o anonimato.

(Jarbas Medeiros, no livro “daXx, zynGg e sporanOx”, lançado com o pseudônimo Mafalda Cataraz)

Outro dia recebi, também de Minas, trabalhos avulsos de Jarbas Medeiros. Já o conhecia de nome e fama, conheço-o agora de obra. É uma coisa séria em matéria de vanguarda, de audácia. Em São Francisco ou em Nova York, escrevendo em inglês, Jarbas colocaria qualquer Kerouac ou Ginsberg como aquilo do cavalo do bandido”, asseverou Carlos Heitor Cony em sua coluna na Folha de S. Paulo de 20 de abril de 1997.

‘Surrealismo à brasileira’ – se estivesse falando em vez de escrever, diria que estou pensando em voz alta – se tomarmos o que é discrepante hoje – por exemplo, esse estranhíssimo Jarbas Medeiros de Minas Gerais, que assina Mafalda Cataraz”, afirmou o poeta Cláudio Willer.

“Obra livre, criativa e fora de todos os padrões”, disse o historiador Francisco Iglésias.

Uma poesia que resiste a qualquer classificação, a de Jarbas Medeiros (1930-2005). Seus primeiros livros saíram em pequenas edições artesanais, que apontavam para um estranhamento à máxima potência, desde sua estreia: Horribilicribrifax tlacaxipehualiztli, de 1994.

Dois anos depois, viria a público Jarbaslândia. Sempre tiragens pequenas, alcançando pouquíssimos leitores.

A editora Autêntica, de Belo Horizonte, editou seus últimos títulos. O primeiro deles, sob o pseudônimo de Mafalda Cataraz, foi DaXx, zynGg e sporanOx, de 1998. Em 2002, saiu Manual técnico do alfaiate caprichoso, na verdade uma reedição com título diferente de sua segunda incursão na poesia.

Seus poemas se caracterizam por flertes com o nonsense, o grotesco,k o humor e o escatológico, sublinhados por uma crítica à crise de identidade e ao avanço tecnológico do mundo contemporâneo. Jarbas parece um primo da família que reúne artistas à margem, como Sebastião Nunes e Valêncio Xavier.

Sociólogo, foi prefeito de São Gonçalo do Sapucaí, cidade do interior de Minas, onde nasceu, e deputado estadual (1963-1971). Afastou-se da vida política e tornou-se pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, superintendente da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte, e professor do Departamento de Ciência Política da UFMG. Dedicado às artes plásticas, à crítica de cinema e ao jornalismo, realizou, como pintor, cinco exposições individuais, em Minas e no Rio de Janeiro.

Seu único poema a fazer referência direta a Belo Horizonte é De Jjonas a Jarbas, e bem ao seu estilo, com subversões ortográficas e autoironia.

DE JJONAS A JARBAS

Nnão em Nínive nas praiass
de Nínnive a balleia
aa cumprir missão
vomittouu Jjonas m-as
junntto a mmim rentte
aa mmim
nesste ammanhhcer, praiass
dee Beloo Hhorizontte
m-as aa mmim ppara
misssão nennhhuma, oo
proffetta ssilencciou
semm proffeccias mme
deixxou (Jjonas
mee deixxou) appennas
estte Jarbbas assimm
commo ssou

Finalmente, valeu conhecer o depoimento de Jarbas Medeiros ao programa Memória & Poder, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de 2005:  http://www.almg.gov.br/acompanhe/tv_assembleia/videos/index.html?idVideo=645906&cat=87

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Uma tentativa fracassada de entrevistar Fernando Sabino

Conto uma rápida história, que aconteceu bem antes da concepção do projeto “Cartógrafos da vertigem urbana”.

Em maio de 2000, fui convidado pelo então editor Israel do Vale para trabalhar na Palavra, revista mensal criada pelo Ziraldo em 1999 e, em seguida, assumida pela empresária Ângela Gutierrez.

A revista durou menos de dois anos, entre 1999 e 2000. Com sede em Belo Horizonte, a Palavra teve vida curta mas intensa, com uma proposta de incluir em sua pauta assuntos fora do eixo Rio-São Paulo.

Mesmo trabalhando na revista apenas três ou quatro meses, percebi rapidamente que aquela redação era um dos ambientes mais criativos em que já havia trabalhado. Além do Israel, a revista era comandada pelo José Eduardo Gonçalves e contava com nomes como a poeta Luciana Tonelli.

Uma das pautas que tentei emplacar foi um perfil com o escritor Fernando Sabino (1923-2004). Tentei entrevistá-lo, mas sua posição foi a mesma com que respondeu a diversos outros tantos jornalistas que o procuraram àquela época: não poderia dar a entrevista, pois tudo o que poderia falar já estava em seus livros.

No entanto, mandou-me pelos Correios o discurso de agradecimento pelo Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra, que havia recém recebido; e dois de seus livros, ambos pela Record: A chave do enigma, de 1999, e O tabuleiro de damas, de 1988. Nesses textos estariam todas as respostas a perguntas que eu pudesse formular para o escritor.

Anos depois, com base nesses textos e em outras entrevistas, pude reconstituir uma das últimas visitas do autor de O encontro marcado (1956) a Belo Horizonte. Essa passagem estará no livro “Cartógrafos da vertigem urbana”.

Ângela Gutierrez ainda detém a marca da revista Palavra, e disse em uma entrevista em 2009 que um dia, quem sabe, poderia relançá-la.

Escrever com a luz

Belo Horizonte, MG, 9 de maio de 2015 Produção de imagens para o livro "Cartógrafos da Vertigem Urbana", do escritor Fabrício Marques. FOTO: Bruno Magalhães/NITRO
Belo Horizonte, MG, 9 de maio de 2015
Produção de imagens para o livro “Cartógrafos da Vertigem Urbana”, do escritor Fabrício Marques.
FOTO: Bruno Magalhães/NITRO

Todo profissional das câmeras sabe que fotografar é escrever com a luz.

A luz de maio é particularmente especial em Belo Horizonte, como muitos também não ignoram.

Fomos conferir, nesse final de semana, na agência de fotografias Nitro Imagens, bairro Anchieta, o ensaio fotográfico que o João Marcos Rosa está produzindo para o projeto Cartógrafos da Vertigem Urbana.

As fotos estão excelentes. Elas seguem o roteiro traçado pela reportagem, destacando locais simbólicos da capital mineira do ponto de vista literário, como a Praça da Liberdade, o Edifício Maletta,  Baixo Belô e a Pampulha.

João Marcos começou sua carreira em 1998, documentando a cultura e a biodiversidade brasileiras. Graduado em jornalismo, especializou-se em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a percorrer o mundo atrás dessas histórias.

Seu trabalho é publicado em revistas como GEO, BBC Wildlife e Terra Mater. Desde 2004 é colaborador regular da National Geographic Brasil, onde produziu mais de 20 reportagens.

É autor dos livros Harpia e Fauna de Carajás (Nitro Editorial) e tem imagens publicadas em diversas publicações, como Facing Extinction (T&Ad Poiser), Mata Atlântica (MMA), Biota (Biodiversitas), dentre outras.

João é  um dos sócios da agência de fotografia Nitro Imagens (www.nitroimagens.com.br).

Ba-ti-cum! Ba-ti-cum! – no ritmo potente de Sonia Lins

Reprodução da capa da 2ª edição de "Baticum", lançada pelo Museu Histórico Abílio Barreto em 2003
Reprodução da capa da 2ª edição de “Baticum”, lançada pelo Museu Histórico Abílio Barreto em 2003

“Quando eu estiver
calada não me
interrompa porque
estou falando comigo”
(Sonia Lins)

Se há um livro “difícil de classificar”, como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade; se há um livro que “parece uma linguagem-natureza, é como a floresta, raízes profundas que se entrelaçam, sombras, galhos”, como cravou a artista plástica Lygia Clark, este livro é Baticum, um mergulho surrealista (entre outras características) na infância de Sonia Lins nos anos 1920 e 1930 da capital mineira.

Fiquemos acertados, de saída, que Baticum é “a palavra onomatopaica para a batida cardíaca, e esse zabumba que ritma o compasso do viver dá a cadência de suas páginas comovidas”, como assinalou o crítico Mário da Silva Brito.

Lançado em 1978 pela editora Pedra Q Ronca, do poeta Wally Salomão (e relançado pelo Museu Abílio Barreto em 2003), Baticum é uma viagem inovadora-surrealista-irreverente-irônica da artista à sua infância em uma Belo Horizonte ainda com poucos anos de vida, uma cidade de interior, localizada a 15 horas de trem da capital federal [o Rio de Janeiro], filtrada pelo olhar provocador da artista: “Céu de Belorizonte, ao olharmos para ele, estava alto e azul. Pulávamos os degraus da cozinha, pisando cestos arriados dos ombros de verdureiros, colocados no cimento do patamar da escada, permitindo ao grosso braço da mãe escolher a verdura que daria ao pai para mastigar na hora do almoço.”

Ignorando um momento [as últimas décadas] em que o uso que fazem da palavra “experimental” jaz desgastado, Sonia, começou a produzir, em 1972, sua prosa poética para contar sua versão daquela cidade mais provinciana que cosmopolita, tão distante da metrópole (vivenciando o provincianismo em outro grau) que viria a ser. E fala de seus personagens maravilhosos, como a a mãe do braço grosso, o o pai maníaco com seus maxilares de cavalo ou o avô baixo e gordo, borbulhante de risos, entre outros. “Eu descrevia a pessoa só com as características físicas e chegava ao lado de dentro da pessoa”, entregou.

Sonia Lins (1919-2003) nasceu em Belo Horizonte e foi uma personalidade exuberante e criativa, tanto quanto sua irmã, a artista plástica Lygia Clark (1920-1988). Sonia morou na capital mineira até 1942, quando casou e se mudou para Arcos. Na cidade do interior de Minas, deu aulas de tricô para as mulheres dos lavradores e promoveu sessão de cinema para os empregados. Seis anos depois, retornou para a capital mineira para, enfim, partir definitivamente para o Rio de Janeiro (e depois Paris) em 1950.

Em 1959, publica crônicas e poemas no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Inquieta, a partir do Baticum deixou sua marca criativa em diversas realizações. Criou um guarda-chuva morcego – um guarda-chuva na forma do animal, mais tarde confeccionado por um especialista em efeitos especiais francês. Apresentou em 2000 sua primeira exposição, Se é para brincar eu também gosto, no Museu Nacional de Belas Artes. Encomendou 600 fotos de umbigos à fotógrafa Bel Pedrosa, para o filme Zumbigos, filmado nas ruas e praias do Rio de Janeiro. Em 2003, inaugurou a exposição Brasil passado a sujo, composta de instalações sobre a corrupção, a desigualdade e a política.

Em setembro do ano passado foi lançado o excelente Museu Virtual Sonia Lins, que merece uma visita demorada. Ele contém, entre tantas delícias, a versão em PDF de todos os livros dessa extraordinária mineira. Comece pelo Baticum. E não deixe de ler a sua biografia, mesmo título de sua primeira exposição.

Para acessar o Museu Virtual Sonia Lins: www.sonialins.com.br

Template de página do Museu Virtual Sonia Lins, no ar desde setembro do ano passado
Template de página do Museu Virtual Sonia Lins, no ar desde setembro do ano passado