Lembranças de Oswaldo França Júnior

Oswaldo França Júnior e seu famoso Opala azul: um escritor de primeira.  Crédito: Acervo SLMG
Oswaldo França Júnior e seu famoso Opala azul: um escritor de primeira.
Crédito: Acervo SLMG

“EU NÃO O CONHECI

Meu filho foi embora e eu não o conheci. Acostumei-me com ele e me esqueci de conhecê-lo. Agora que sua ausência me pesa, é que vejo como era necessário tê-lo conhecido.
Lembro-me dele. Lembro-me bem em poucas ocasiões.
Um dia, na sala, ele me puxou e a barra do paletó e me fez examinar seu pequeno dedo machucado. Foi um exame rápido.
Uma outra vez me pediu que lhe consertasse um brinquedo velho. Eu estava com pressa e não consertei. Mas lhe comprei um brinquedo novo.
Na noite seguinte, quando entrei em casa, ele estava deitado no tapete, dormindo e abraçado ao brinquedo velho. O novo estava a um canto.
Eu tinha um filho e agora não o tenho mais porque ele foi embora. E este meu filho, uma noite, me chamou e disse:
-Fica comigo. Só um pouqinho, pai!
Sou um homem muito ocupado. Mas meu filho foi embora. Foi embora e eu não o conheci.”

(Oswaldo França Júnior)

*

“Na manhã chuvosa de um sábado, 10 de junho de 1989, o coronel aviador reformado Oswaldo França Júnior voltava de uma conferência sobre literatura realizada na cidade mineira de João Monlevade quando, por um instante, distraiu-se trocando as fitas de música de seu carro. Foi o bastante para que o veículo dirigido pelo ex-piloto de avião de caça aquaplanasse na rodovia escorregadia e se precipitasse num barranco, matando, aos 53 anos de idade, um dos melhores escritores brasileiros”.

Assim começa o texto de apresentação da edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG), “Lembranças de Oswaldo França Jr.”, lançada em outubro de 2009. Um dos textos desse especial é uma entrevista que o escritor concedeu ao jornalista Geneton Moraes Neto.

Ex-piloto de caça da Aeronáutica, expulso das Forças Armadas pelo golpe militar de 1964, França Júnior lembrou, nessa conversa, o episódio dramático em que se envolveu em 1961, quando seu Esquadrão, sediado em Porto Alegre, não acatou as ordens superiores para eliminar, por meio de bombardeio, o então governador gaúcho Leonel Brizola, que defendia a legalidade da posse do vice-presidente João Goulart no posto do renunciado Jânio Quadros, em desafio aos desejos das Forças Armadas.

Oswaldo França Júnior, nascido no Serro, Minas Gerais, em 1936, publicou 13 romances – um deles, Jorge, um brasileiro, foi roteirizado e filmado pelo cineasta Paulo Tiago, e, mais tarde, inspiraria a série global “Carga pesada” – e um livro de contos, “As laranjas iguais”, do qual faz parte o conto “Eu não o conheci”, um de seus textos mais conhecidos.

Em sua obra encontra-se pelo menos uma referência a Belo Horizonte, em “O homem de macacão” (Nova Fronteira, 1972).

O SLMG sobre Oswaldo França Júnior pode ser acessado aqui:
http://www.cultura.mg.gov.br/files/2009-outubro-especial.pdf

Tavinho Moura e os pássaros da Pampulha

Estrelinha, ou Sporophila lineola, uma das 150 espécimes fotogradas por Tavinho Moura na Pampulha
Estrelinha, ou Sporophila lineola, uma das 150 espécimes fotogradas por Tavinho Moura

Dez de abril de 2015, sexta-feira, sete da noite. Eu e Tavinho Moura chegamos juntos ao local de nossa conversa, o Bar do Careca, na Cachoeirinha, lugar em que muitas vezes ele pode ser visto com o parceiro e amigo, o compositor e Fernando Brant. Juntos, compuseram, entre tantas, “Paixão e fé” (Já bate o sino, bate na catedral/ E o som penetra todos os portais), uma dessas canções que, por si só, ajudam a definir o jeito de ser e viver de parcela significativa de uma comunidade (no caso, os mineiros).

Tavinho  (nascido Otávio Augusto Pinto de Moura, em Juiz de Fora, em 1947), é um dos mais inquietos dos participantes do mítico Clube da Esquina. Compôs trilha sonora para cinema, lançou livro (Maria do Mauté, uma estória do Rio São Francisco, 2007) com ilustrações de Jorge dos Anjos e tem se aventurado pelo universo da viola caipira: nos próximos meses lança seu novo CD “Beira Linha”, em que pontifica sobre esse instrumento.

Seu disco anterior, “Minhas canções inacabadas” (Dubas, 2014), entrega sua íntima ligação com a palavra escrita. Uma das músicas é uma versão do poema “Confidência do itabirano”, de Drummond.

Mas o assunto principal de nossa conversa é outro de seus projetos, um livro de poemas e fotografias, “Pássaros poemas: Aves na Pampulha” (Editora Gomes, 2012), em que apresenta o resultado de sua incursão na lagoa vizinha do Mineirão (ele já está finalizando seu segundo livro de imagens, que se chamará “Vale do Mutum: Aves da Mata Atlântica”, que sairá em julho). Das 200 espécimes que frequentam o local, Tavinho conseguiu fotografar 150 delas.

O compositor e fotógrafo mudou-se com a família para a rua Marechal Deodoro, no bairro Floresta, em 1954. Nos últimos anos fixou-se nas imediações da Pampulha. Num só lance, reuniu a caminhada (quatro quilômetros diários) com a fotografia. Numa variação da escola peripatética, os discípulos de Aristóteles, achou de caminhar fotografando,ou de fotografar caminhando. Deu certo.

Belo Horizonte já havia aparecido em “Dindilim”, sua parceria com Fernando Brant que está no disco de estreia, “Como vai minha aldeia”, de 1978. (“Na janela uma voz/gritaria no portão/já é dia, já é hora/todo mundo está lá fora/com o tênis na mão/esperando Dindilin/artilheiro e capitão/ da rua Cláudio Manoel”). O time da rua Cláudio Manoel enfrenta o time da Avenida do Contorno, e Dindilim é o próprio Fernando.

Anos depois, outra referência à cidade aparece na parceria com Murilo Antunes, “Tesouro da juventude” (“E meu tesouro me leva/ Pelas ruas de Santa Teresa/ A pedalar”).

Em certo momento, chegou a vez da Pampulha. Tavinho, enquanto passarinho, “sempre de olhos e ouvidos atentos, identificando qual trinado rompeu o silêncio” (como anota num dos poemas do livro), ficou de prontidão para os pássaros urbanos cativados pela arquitetura de Oscar Niemeyer e pelos jardins de Burle Marx.

Foi a campo: Jardim Botânico, Zoológico, Lagoa do Nado, Parque Ursulina. Levou quase cinco anos para concluir o trabalho. Sua rotina para tirar as fotos incluía camuflagem com roupa verde, já que patos são ariscos, fogem com aproximação de estranhos.

Esteve próximo de registrar a Lavadeira de Nossa Senhora em 2009, porém só dois anos depois conseguiu captá-la. “Precisa chover muito pra ela aparecer”, me disse.

Perto do PIC, perseguindo a Alma de Gato Cinzento, “ganhou” mais de 50 carrapatos, no meio do brejo.

Por causa do Galo de Campina, escreveu que o sertão começa na Pampulha.

De tarde, próximo ao Mirante das Garças, captou o Perna de Pau, ave que migra à noite, vinda do México.

Num outro dia, foi a vez do Frango d’Água Azul, a mais bonita das aves.

O que é isso, que movimento é esse? É Tesourinha:

“flutua na vaga/ por dias a fio/ graceja pelo vento/ eterno viajante/ saúda belo horizonte/ a tesourinha/ ancorada em calendário/ vem de parque em parque/ como se atendesse/ o chamado da primavera”

E aquele, mais à frente, com garbo de realeza?

príncipe na praça da liberdade

 “na praça da liberdade    de tardinha     ele caçava invisíveis insetos deixava o/poleiro    traçava no céu uma laçada e retornava preciso ao ponto de partida/ ninguém sabia     que em frente ao palácio     morava um príncipe”

Vinde vós todos, que Tavinho convocou: Marreca Asa de Seda, Biguá, Pato Mergulhão e a Garça Branca Grande.

Meu nome é Saltator similis, mas pode me chamar de Trinca Ferro.

Meu nome é Euphonia chlorotica, mas pode me chamar de Gaturamo Fim Fim.

Ó vinde vós todas, aves de alta fidalguia:

vinde Maria Faceira, Socozinho, Carcará e Gavião Carijó.

Jacu, Saracura Três Potes, Jaçanã e Maçarico Pernalonga.

Vinde Gaivota Trinta Réis Grande, Manoelzinho da Crôa e Queroquero.

Juriti Gemedeira, Pomba Galega e Rolinha Caldo de Feijão.

Vinde Periquito Tuim, Maracanã e Coruja Buraqueira.

Ariramba da Mata, Tucano Toco e Chorozinho de Chapéu Preto.

Vinde João Graveto, Peitica de Chapéu Preto e Maria é Dia.

Maria Cavaleira de Crista Curta, Pijuí e Bentevi Nei Nei.

Enquanto muitos viram o assoreamento, a poluição e o descaso com a Lagoa da Pampulha, Tavinho viu as aves.

Reprodução da capa do livro Pássaros poemas - Aves na Pampulha, de Tavinho Moura, de 2012
Reprodução da capa do livro Pássaros poemas – Aves na Pampulha, de Tavinho Moura, de 2012

Homenagem a Wander Piroli

convite evento piroli

É nesta quarta-feira (15/4/2015) o evento da pré-FliBH em homenagem ao escritor Wander Piroli, às 19 horas, na Academia Mineira de Letras.

Confiram matéria que saiu no caderno Magazine, do jornal O Tempo, assinada pelo repórter Fábio Corrêa, neste link:

http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/o-autor-que-era-a-lagoinha-1.1024401

E esta outra, no Almanaque do jornal Hoje em Dia, assinada pela repórter Elemara Duarte:

http://www.hojeemdia.com.br/almanaque/a-literatura-lirica-e-aspera-da-lagoinha-1.311754

O áspero lirismo de Wander Piroli

Desenho do caricaturista Quinho especialmente para o SLMG publicado em 2011
Desenho do caricaturista Quinho especialmente para o SLMG publicado em 2011

Fui convidado para participar de uma homenagem ao escritor Wander Piroli (1930-2006) nesta quarta-feira (15/4/2015). Também estarão presentes na conversa a Branca Maria de Paula, o Carlos Herculano Lopes, Letícia Malard, Luiz Carlos Abritta, Olavo Romano e Sérgio Fantini. O evento será na Academia Mineira de Letras, às 19 horas.

“Nós morávamos na Lagoinha, um bairro safado, de características muito especiais, que começava na Praça Vaz de Melo (que chamávamos de Praça da Lagoinha, uma praça incrível) e terminava na Pedreira Prado Lopes. Pessoas de boa família evitavam tanto a praça quanto a Pedreira que, como eu já disse, abasteciam com sobra o noticiário policial dos jornais. Um reduto de marginais, bêbados, vagabundos, criminosos – diziam. Mas nós nos sentíamos muito à vontade na Pedreira e amávamos a Praça, que sempre teve a mania de ficar acordada dia e noite. A Pedreira é uma favela, mudou; a Praça foi derrubada, acabou.” Esse reminiscência é trecho de um autorretrato do Piroli, que coloca em evidência a importância dessa região na obra do autor de “A mãe e o filho da mãe”, seu livro de estreia, em 1966, pela Imprensa Oficial.

“’A Lagoinha sou eu’, poderia dizer Wander Piroli, não no sentido em que Luís XIV disse de sua relação com o Estado, mas no sentido de Flaubert, quando afirmou que Emma Bovary era ele. A Lagoinha é Wander Piroli e a Lagoinha é Belo Horizonte”, cravou o professor da UFMG João Antônio de Paula, na apresentação ao número de estreia da excelente coleção “BH: A cidade de cada um”, coordenada por José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião.

Um número especial todo dedicado ao escritor Wander Piroli foi lançado em novembro de 2011, pelo Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG). “O áspero lírismo de Wander Piroli” foi todo pensado pelo editor, Jaime Prado Gouvêa, que disse o seguinte sobre o escritor: “Um dos mais vigorosos representantes do conto brasileiro, Wander Piroli, mineiro de Belo Horizonte, marcou com lucidez cortante, realista, cruel, mas sempre lastreada por uma ternura íntima, as páginas carregadas com a herança do velho e boêmio bairro da Lagoinha de sua juventude, fazendo de seu texto uma lâmina afiada que desvelava com amor e precisão os miseráveis que acolheu em seus livros”.

Wander Piroli também foi editor do SLMG (então Suplemento Literário do “Minas Gerais”) em 1975, e, mesmo no curto espaço de cinco meses, registrou nas páginas do jornal sua marca inconfundível.

O número especial do SLMG traz as homenagens de alguns de seus companheiros de trajetória: lembranças dos amigos escritores Ignácio de Loyola Brandão e Antônio Torres, crônicas de Fernando Brant e Sebastião Nunes – que destaca o conto “Festa” como o melhor conto brasileiro –, além de recordações de seus colegas jornalistas em depoimentos organizados por Regis Gonçalves e Sebastião Martins.

Como eu estava no Suplemento nessa época, convidei para fazer a capa o cartunista Quinho, um dos mais brilhantes do Brasil. O Quinho foi eleito o melhor caricaturista brasileiro pelo Troféu HQ Mix de 2004, venceu a 10ª edição do Prêmio Líbero Badaró, na categoria Ilustração, e foi premiado em diversas edições do Salão de Humor de Piracicaba.

Aqui, você confere o SLMG especial sobre Wander Piroli. http://www.cultura.mg.gov.br/files/2011-novembro-especial.pdf

Entre 2006 e 2009, sob a curadoria do Paulinho Assunção, a Editora Leitura publicou livros como “É proibido comer a grama”, “O matador” e “Os dois irmãos”. E a Cosac Naify, a partir de 2015, começou a colocar nas livrarias a obra completa do contista. Já saíram, entre outros, “O menino e o pinto do menino” e “Os rios morrem de sede”.

Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos

Milhares de brilhos vidrilhos em Belo Horizonte, na foto de Guilherme Bergamini
Milhares de brilhos vidrilhos em Belo Horizonte, na foto de Guilherme Bergamini

Há dois nomes fundamentais na história da literatura brasileira que atuaram como aglutinadores de talentos em Belo Horizonte. Um deles foi Murilo Rubião. Sua criação de 1966, o Suplemento Literário de Minas Gerais, que brilhou com mais intensidade até o início dos anos de 1970, foi só um pretexto para continuar e ampliar um encontro marcado e iniciado, antes, com Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos.

A outra dessas pessoas-imã, com o único propósito de reunir, em torno de si, afinidades eletivas para pensar o país e simplesmente criar textos de alto nível, foi Mário de Andrade. Entre 1919 e 1944, ele saiu de São Paulo para Minas em quatro ocasiões. Em cada uma dessas viagens, amizades eram consolidadas e jovens talentos eram incentivados a prosseguir.

A primeira viagem de Mário a Belo Horizonte aconteceu em julho de 1919. Da capital, foi até Mariana visitar o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, a quem admirava.

Depois desse encontro, Alphonsus escreveu ao filho, o também escritor João Alphonsus, que morava em Belo Horizonte, em carta de 15 de julho de 1919:

“Há cinco dias esteve aqui o Sr. Mário de Morais Andrade, de S. Paulo, que veio apenas para conhecer-me, conforme disse. (…) É um rapaz de alta cultura, sabendo de cor, em inglês, todo o “Corvo” de Poe. Viaja para fazer futuras conferências, e visitou todos os velhos templos desta cidade. A verdade é que, para quem vive, como eu, isolado – uma visita dessas deixa profunda impressão”.

A segunda viagem de Mário a Belo Horizonte acontece durante a Semana Santa de 1924, na famosa caravana dos modernistas, composta por nomes como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta francês Blaise Cendrars. É uma circunstância fundamental para aproximar Mário de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Emílio Moura. A cidade contava com cerca de 55 mil moradores, segundo o Censo de 1920.

Um dos marcos da viagem é a criação de um dos poemas mais significativos de Mário de Andrade, o Noturno de Belo Horizonte, que é, ao mesmo tempo, um dos poemas mais emblemáticos da capital mineira. Sua primeira estrofe já começa com um verso definitivo:

“Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos,
Calma do noturno de Belo Horizonte…
O silêncio fresco desfolha das árvores
E orvalha o jardim só.
Larguezas.
Enormes coágulos de sombra.
O polícia entre rosas…
Onde não é preciso, como sempre…
Há uma ausência de crimes
Na jovialidade infantil do friozinho.
Ninguém.
O monstro desapareceu.
Só as árvores do mato virgem
Pendurando a tapeçaria das ramagens
Nos braços cabindas da noite.”

A terceira viagem de Mário a Belo Horizonte foi de 11 a 15 de novembro de 1939, para apresentar duas conferências, a convite do Diretório Central dos Estudantes: “O Sequestro da Dona Ausente”, no Salão Nobre do Conservatório de Música, e “Música de Feitiçaria no Brasil”, no Auditório da Escola Normal. Foram recepcioná-lo na Estação Central do Brasil João Etienne Filho, Murilo Rubião, Guilhermino César, João Alphonsus e Cyro dos Anjos, entre outros.

“Belo Horizonte cultuava ainda o espírito moderno e a sedução pela vida cultural que se encenava nos grandes centros, principalmente com a saída de muitos escritores para o Rio de Janeiro, então capital do país”, observa Eneida Maria de Souza, no ensaio “A Dona Ausente”, que abre a correspondência reunida de Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa (Edusp/IEB, 2010).

Têm início nessa época a forte relação de amizade com jovens escritores mineiros, dos quais se destacam Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião e Henriqueta Lisboa.

A quarta viagem de Mário a Belo Horizonte foi em 1944. Ele esteve na cidade entre os dias 4 e 17 de setembro. Nesse período, visitou o túmulo de João Alphonsus e o Instituto de Belas Artes [Escola Guignard]. Almoçou em casa de Henriqueta Lisboa, que, na época, residia com os país, à Rua Bernardo Guimarães, e também em casa de Alaíde Lisboa de Oliveira, irmã de Henriqueta. O escritor visitou a sede de O Diário e encontrou-se com o casal Antônio Joaquim de Almeida e Lúcia Machado de Almeida. Em carta a Henriqueta Lisboa, datada de 27 de setembro de 1944, o autor de Pauliceia Desvairada avisa: “’Não volto mais a Belo Horizonte. Está claro, Henriqueta, que não tenho a menor intenção de praticar essa decisão, mas seria o mais razoável. Não voltar.”

Mário de Andrade morreu há 70 anos, no dia 25 de fevereiro de 1945. A quarta viagem foi realmente a última.

O Noturno de Belo Horizonte termina assim:

“Dorme Belo Horizonte.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras…
Não se escuta siquer o ruído das estrelas caminhando…
Mas os poros abertos da cidade
Aspiram com sensualidade com delícia
O ar da terra elevada.
Ar arejado batido nas pedras dos morros,
Varado através da água trançada das cachoeiras,
Ar que brota nas fontes com as águas
Por toda a parte de Minas Gerais.”